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As rosas falam à memória do Coió, por Erick Bernardes


Casa da Dona Ercila com a família posando para a foto. Uma das primeiras residências da região do Coió após o loteamento, havia no terreno algumas plantas remanescentes do antigo roseiral. Início da década de 60/Acervo da família de Dona Ercila

Há desses acasos do cotidiano que insistem em esbarrar na ficção. Nem tudo é flor na vida, não é mesmo? Mas quando a arte se mistura à história municipal, não tem pra ninguém, surge então uma crônica interessante. Pois é, imagine, ouvir de um músico gonçalense a linda narrativa familiar sobre a antiga plantação de rosas em São Gonçalo. Impossível não tecer relações com o samba do Mestre Cartola. Claro, principalmente se devemos este relato ao amigo Fred Tavares, também ele um bamba da música por aqui. E vamos ao texto:

Bem, em certa conversa com o sambista amigo Fred, recebi o relato de uma das mais antigas famílias residentes no sub-bairro Coió. Isso mesmo, fácil de explicar, porque refiro à parte de um extinto roseiral do imigrante espanhol José Coió, no município gonçalense. Uma pérola de relato, houve no passado uma chácara a servir no abastecimento de flores para muita barraca por aí. Exato, barracas de flores, rosas espanholas do tipo exportação se espalhando pelo leste fluminense. Hoje chamam de Lindo Parque o todo do espaço onde também está encravado o Coió. Mas referiam a essas redondezas por Largo de São Jorge e a região onde se localizava a chácara do José Coió, todavia só depois de muito tempo se deu o tal nome inventado, Lindo Parque. Lindo, onde? Parque, de quê? Nem uma referência ao velho roseiral.



Bom, só sei que, as rosas não falam, conforme o samba do morro, e os artistas da música não falham em oferecer sensibilidades narrativas. Sim, juro a você, enquanto me contava a história familiar, Fred demonstrava emoção e senso didático incomum.


— Cara, meu pai me falava muito sobre esse José Coió. Meu velho tinha só 2 anos de idade quando meus avós vieram de Friburgo pra cá, há 67 anos, e aqui conheceram gente da antiga que contava essa história. Estou feliz de você me procurar e escrever sobre as rosas da Espanha cultivadas em São Gonçalo. Por pouco a memória não se perde. Minha avó é viva, vamos lá falar com ela, será um prazer lhe receber.

Lembrei logo da música. É como se ele dissesse: “— Devias vir, para ver os meus olhos tristonhos”. “E, quem sabe, não sonhe também os meus sonhos!” Estava comovido o meu amigo, obviamente. Reconhecia ter o sonho de escrever a memória quase apagada da família. E eu estava ali para conversar com a avó dele e oferecer umas palavras acerca do assunto para futura publicação. Chegando ao jardim modesto, mais azaleias que rosas de fato. Jardim pequeno, cadeiras na frente da casa, violetas na janela — e a nobre senhora a sorrir.


— Seja bem-vindo, querido Erick! Prazer receber você.


A fala da dona Ercila me fez marejar as vistas. Lembranças doces, hábitos e tradições prontos a serem narrados. Acredita que ela tomou banho, cuidou do cabelo e se perfumou toda só para me receber? Me senti importante. Ainda bem que você não estava lá, caro leitor, para não me assistir chorar. Enfim, as rosas não falam, mas a avó do Fred sim. E hoje é dia 5 de janeiro, data do aniversário dela. Parabéns, dona Ercila, muitos anos de vida!

Dona Ercila e esposo Senhor Joaquim Antônio Pereira na sala de casa. No detalhe o móvel de vitrola fabricado pelo próprio Joaquim, avô do Fred/Acervo da Família

Imagem do final da rua Rosalina Barbosa, uma das primeiras no loteamento do Coió, hoje considerado um sub-bairro de SG, exatamente onde outrora existiu o roseiral/Acervo da família

Link para o samba sobre as rosas do Mestre Cartola: https://g.co/kgs/p2iEXq

Erick Bernardes é escritor e professor mestre em Estudos Literários.




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