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O super-herói, a viagem e a democracia que insiste em viver

há 1 minuto
3 min de leitura

Por Mira Pimentel


O fujão/Foto: Eva Marie Uzcategui Reuters
O fujão/Foto: Eva Marie Uzcategui Reuters


Há viagens que começam nos aeroportos, outras começam nos interesses.


E há aquelas que, mesmo antes de chegarem ao destino, já levantam mais perguntas do que respostas.


A viagem de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos parece pertencer à terceira categoria.


Depois de uma derrota nas urnas, o senador deixou o Brasil, atravessou fronteiras, passou pela Argentina e pelo Equador e chegou a Miami.


Uma viagem cercada de mistérios, articulações, versões e perguntas que ainda merecem esclarecimento. Do outro lado do continente, encontrou-se simbolicamente próximo de seu grande super-herói internacional: Donald Trump, o homem que ainda alimenta a fantasia de uma direita que confunde poder pessoal com destino de uma nação.


Mas até os super-heróis envelhecem. E o relógio da democracia não pode ficar subordinado à agenda de um personagem. Restam pouco mais de dois anos para o encerramento do mandato de Trump. Talvez seja tempo suficiente para que o mundo compreenda que nenhuma democracia precisa de salvadores autoproclamados.


Enquanto isso, por aqui, o Brasil precisa continuar existindo. E existir significa muito mais do que disputar o poder.


Significa contemplar o trabalhador da limpeza urbana e o banqueiro, o idoso e o jovem, o cidadão que acorda de madrugada para garantir o sustento da família e aquele que empreende e produz. Significa compreender que a democracia não é um privilégio de quem governa, mas um direito de quem vive, trabalha, pensa, discorda e participa.


É preciso falar de saúde, educação, arte, cultura e informação de qualidade.


É preciso garantir que o conhecimento não seja privilégio e que a dignidade não dependa da posição social de ninguém.


Vivemos numa ilha de informações, cercados por telas, celulares e uma infinidade de discursos. Nunca tivemos tanto acesso à informação e, paradoxalmente, nunca estivemos tão expostos à desinformação.


Uma nuvem de notícias falsas tenta encobrir a realidade, confundir consciências e produzir uma espécie de recessão moral, humana e ambiental.


A internet pode ser uma ferramenta extraordinária de emancipação, pesquisa e conhecimento. Mas também pode se transformar numa fábrica de mentiras, onde a repetição substitui a verdade e a indignação é comercializada como espetáculo.


A política dos mentirosos, entretanto, já não encontra o mesmo terreno confortável. Há instrumentos de checagem, pesquisas, documentos e cidadãos capazes de confrontar narrativas. A tecnologia pode servir à manipulação, mas também pode servir à liberdade.


E precisamos olhar para além das disputas eleitorais.


O meio ambiente continua pagando uma conta que não foi ele quem fez. Devastações em áreas de preservação, invasões de terras indígenas, grilagem e ameaças aos povos originários revelam uma disputa que ultrapassa a propriedade da terra: é uma disputa pela memória, pela sobrevivência e pelo futuro.


Não somos os Estados Unidos. Somos Brasil. Um país de muitas matrizes, de povos originários, africanos, europeus e tantas outras contribuições que formaram nossa identidade. Somos mistura, somos diversidade, somos contradição, mas também somos cooperação.


Há em nossa essência uma relação ancestral com a terra. Em algum momento da existência, quase todos buscamos o contato com a natureza, o cheiro da chuva, a sombra de uma árvore, a simplicidade de uma conversa sem interesses. Talvez porque, quando nos afastamos demais daquilo que nos sustenta, também nos afastamos de nós mesmos.


E então surge uma pergunta que não pode mais esperar: Que país queremos construir? Um país que passa a existência procurando inimigos e heróis ou uma sociedade que finalmente compreenda a responsabilidade de cuidar uns dos outros?


Talvez tenhamos uma decisão a tomar. Podemos continuar alimentando a política do ressentimento, da mentira e da adoração a personagens que se imaginam maiores do que as instituições. Ou podemos nos debruçar sobre nossa própria existência e reconhecer que o verdadeiro resgate começa quando aprendemos a viver com amor, igualdade e respeito.


Não precisamos concordar em tudo. Precisamos compreender o lugar de cada pessoa, respeitar as diferenças e reconhecer que nenhum brasileiro vale menos do que outro.


Que possamos deixar, em cada irmão que encontrarmos, um pouco de acolhimento: um colo, um abraço, uma palavra, uma oportunidade, um gesto de amor.


Quanto a Flávio, suas viagens, seus planos e seus super-heróis, que os fatos sejam esclarecidos, que as instituições cumpram seu papel e que a verdade não seja sacrificada no altar dos interesses particulares.


Porque o final dessa novela não deve ser escrito por uma família, por um partido ou por um líder estrangeiro.


Deve ser escrito pelo povo brasileiro.


E que seja um final feliz, sim, mas principalmente justo. Um final em que a democracia não precise de heróis, porque finalmente terá cidadãos conscientes de que são eles os verdadeiros protagonistas da história.


Afinal, uma nação não precisa de um super-herói. Precisa de humanidade.


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