Bandeirantes e algumas cacetadas por aí, por Erick Bernardes


Imagem: Pixabay
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Desculpe-me!

Vou lhe contar uma coisa que me sucedeu por esses dias: é um dos episódios mais corriqueiros deste cotidiano recente de cronista enxerido.


Aposto que o leitor nunca viu pessoa escrever tão despojadamente! Confesso que nem eu, tampouco sei lhe explicar tal fenômeno. Enxerido, reconheço, necessário admitir. Mas nem por isso abro mão de convidá-lo a acompanhar esta história incomum — e entenderá o motivo pelo qual uma corrida de Uber se fez assim relevante. Eis o caso.


Foi no dia 6 de fevereiro, por volta das dez da manhã. Estava em casa, pronto para sair com a família rumo ao almoço de aniversário do meu nada jovem sogro. Jamais me dispunha a escrever crônica qualquer em datas comemorativas. Era domingo, hora do relaxamento psicológico, folgadão.


Acomodado no banco do carona e com todo o desplante de um homem distraído, sem saber o que se havia de conversar com o motorista. Começaria o bate-papo do tipo mais conhecido: "tá quente hoje, né? Parece que chove no fim da tarde". No entanto, qual não foi a minha surpresa! Antes de eu iniciar a conversa vã, o condutor se adiantou no discurso. "Aqui, quando chove, enche tudo de lama, nem dá pra transitar", frisou como quem sabe bem. Gostei, inegável que gostei, manifestações práticas e assuntos sobre a cidade chamam mesmo a minha atenção. Informações raras, fala preciosa, conhecimentos detalhados sobre o bairro Bandeirantes viriam pela frente.

Já nos doze minutos de viagem, segredou: "nasci e me criei aqui, num sítio onde meus antepassados lançaram raízes". Que ótimo! Ao revelar ter o seu avô migrado do Amapá e tomado posse de uma propriedade no Bandeirantes, pertinho de onde existe a praça, nem percebeu o valor da história doravante oferecida. Narrando e dirigindo, informava haver duas versões distintas para a origem do nome do bairro em questão. A primeira, decorreria de certa estação de rádio pertencente à emissora desde muito conhecida. Aquela Rádio Bandeirantes mesma, transformada depois em canal de TV. Hoje há uma padaria no lugar com nome incomum, decorrente de certa briga entre proprietários portugueses. Isso mesmo, a famosa Padaria do Cacete. Não, não é apelido, juro que não. Registro comercial de verdade por causa de um desentendimento e troca de socos entre irmãos. Sim, brigas de família. Alguns dentes quebrados, luxações e muita vizinhança se metendo, fatores que motivaram o nome da panificadora. Pois é, juro haver essa Padaria do Cacete, em letras enormes e coloridas. Mas voltemos ao assunto.


— E a segunda versão, motorista?


Essa é mais histórica. Gosto tanto quanto da primeira. Dizem que os corajosos bandeirantes entravam por aqui desbravando a mata e capturando animais perigosos e carregando suas bandeiras. Paravam na praça ali, óh!


Bem, caro leitor. Como eu deveria explicar ao cidadão do volante que a nomenclatura bandeirante decorre de bando e bandeira como investida por vezes covarde de captura dos humanos nativos de outrora? Exatamente. A bandeira era outra, flâmulas a sacudirem seus panos, no intuito único de guiar emboscadas de cativeiro dos nossos índios. Pois é, são momentos cujos bandos de mercenários invadiam a floresta e desbravavam territórios com fins de exploração e seguiam as respectivas bandeiras dos seus contratantes. Justamente. Seria isso algum equívoco do moço? Necessário revelar inexistência de narrativa romântica. Nada de heróis nacionais. Mas não, decidi não esclarecer. Melhor um engano transformado em lenda do que a certeza melancólica acerca da violência tradicionalmente empregada por aqui. Violência, aliás, que se mantém. Agora com cara de problema urbano.


— Mas mudemos de prosa, motorista. Por favor, explica direitinho que história é essa de Padaria do Cacete?


Fim.


* Nota do autor. Sobre a história da padaria de nome engraçado, eu já sabia. Perguntei só para desviar o assunto e fazer daquele domingo um dia mais leve.

Erick Bernardes é escritor e professor mestre em Estudos Literários.






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