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Lagoinha e o caso do bom cristão, por Erick Bernardes

Não há como fugir da lógica de escrever sobre certo bairro com base no nome de um pequeno espelho d'água apelidado de lagoa. Mas o cotidiano é capaz de tomar as rédeas das nossas mãos e transformar esse pangaré chamado história em ótimo páreo de aposta só para narrar sobre o registro territorial gonçalense de nome Lagoinha. Exato, apostei minhas fichas na conversa com o excelente jornalista Alex Wölbert. E deu certo, ganhou o leitor do Jornal Daki, ganhamos todos nós em conhecimento, e foi assim que o Alex me contou:

Fonte: Livro da irmandade Sagrado Coração de Jesus (Imagem doada por Alex Wölbert)

— Pois é, caro Erick, a tônica da pesquisa deveria começar sobre o fato de ter existido uma lagoa, na Estrada do Pacheco, antes de o lugar assumir tal alcunha transformada em inscrição de território. Lógica simples, explicação previsível, e a investigação rápida terminaria assim: "No Lagoinha havia uma pequena lagoa que motivou o seu registro de fundação". Mas não, nem foi bem desse jeito que ocorreu, há por aí história diferente. Um caso inusitado. Coisas que só quem anda por São Gonçalo é capaz de presenciar. Dia desses, estava eu transitando por Alcântara e eis que encontro um Papai Noel quase desmaiando de tanto calor, ali pertinho do Prédio do Relógio, o velho de barbas postiças em processo adiantado de desidratação. Isso mesmo, ajudei o coitado fantasiado a se levantar, a entrar no carro e a seguir direto para o Hospital das Freiras que existe lá do bairro Lagoinha. Sabe-se que esse hospital é instituição de referência na Saúde em São Gonçalo. Por conta disso, como bom cristão que sou, resolvi cuidar do desbotado personagem da cultura de consumo, e me dispus a ajudar até o fim o bom velhinho quase apagado.

Bem, Alex também me explicou que, enquanto andava pelo espaço interno do hospital, interrogou duas freiras de rostos sabidos. "Juro a você, amigo Erick, nunca imaginei a riqueza de detalhes históricos que extrairia daquele dia aparentemente insoso", finalizou. Incrível no que um pequeno gesto de humanidade é capaz de resultar. Foi desse jeito, Alex obteve a bela narrativa histórica sobre o bairro Lagoinha. Muito da fundação do lugar estava nas fotos espalhadas pelas paredes do hospital. Sobre a imagem grande de N. S. das Graças estampada em detalhe na foto cuidadosamente tratada, falou-se bastante naquele dia. De acordo com os livros das freiras: a Madre Superiora decidiu comprar o Sítio Lagoinha no intuito de construir um convento e, depois, o recanto se tornaria um dos bairros de São Gonçalo. Dizem haver a Casa de Saúde recebido esse nome devido à fé de um figurão importante que ajudou na construção e era muitíssimo devoto de Nossa Senhora. Já a capela ficou de posse dos missionários do Sagrado Coração de Jesus. Um sólida instituição católica, obviamente, impossível não reconhecer.

Curioso o fato de a referida fundação religiosa cobrar pela consulta. Achei estranho, confesso, estranhíssimo. Mas veio explicação: "Antes do espaço configurar o atual hospital, cuidava-se gratuitamente das mães e crianças carentes de recursos monetários". Em outras palavras, caro leitor, atendiam pobres nas enfermarias sem cobrar tostão algum. Mas não vingou, o bom espírito caritativo se rendeu à macroeconomia da saúde - e os atendimentos cristãos de fato puseram fim aos seus serviços em 1974. Daí por diante, adivinha? Nasceu o atual hospital. Exato. Primeiro caridade, depois uma cobrança módica, agora... Deus me livre, sem um plano de saúde se chega ao céu mais rápido, na melhor das hipóteses. Pois é, acho que já deu pra hoje. Mais uma história gonçalense.

Resumo do drama: o símbolo do capitalismo cristão, o Papai Noel, rendeu-se ao hospital Nossa Senhora das Graças no bairro Lagoinha - segundo o qual não é mais gratuito, de jeito algum - e nem sombra de lagoa existe mais. Quanto ao bom velhinho, ficou por lá mesmo, com meio litro de glicose na veia, esperando autorização do plano. Eita mundo esquisito!


Conheça um pouco mais dessa história: https://simsaogoncalo.com.br/sao-goncalo/o-bom-velhinho-no-hospital-das-freiras/

Erick Bernardes é escritor e professor mestre em Estudos Literários.


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