Hipocrisia
- Jornal Daki

- há 6 dias
- 3 min de leitura
SÃO GONÇALO DE AFETOS
Por Paulinho Freitas

Na minha adolescência e juventude, o mês de junho tinha um céu repleto de pipas e balões. Tempo em que para se falar com alguém de outra cidade tinha que se escrever uma carta e esperar por dias a resposta. Sem internet, as pessoas ocupavam portões e calçadas num bate papo sem fim. Era um ajudando o outro, sabendo das dificuldades e necessidades de cada um, todo mundo era todo mundo.
O tempo passou e a população cresceu. A vida ficou mais corrida. A internet chegou e num toque no teclado do telefone você pode falar com alguém que está do outro lado do mundo. A violência pôs as pessoas cada vez mais para dentro de casa e os portões que ouviam todo tipo de fofoca, segredos e confissões, agora abraçam o frio silencioso de seus próprios ferros e sentem as dores do bater ao abrir e fechar. Nada mais. Nem uma lamuria, nem um convite para um café, nem uma confidencia, nada! Só o vento no vácuo de quem passou.
Os balões, cada vez mais lindos e cada vez maiores, se tornaram grande perigo e acertadamente proibido sua confecção, transporte e armazenamento. Algumas pessoas ainda teimam em fazê-lo. Criminosos são. Embora teimem em chamar tal feito de arte.
Quanto as pipas, continuam enfeitando os céus da periferia. No meu tampo, havia o chamado cerol, uma mistura de vidro moído e cola de madeira que passávamos na linha para cortar outras pipas. Ficávamos com os dedos com cortes profundos, era perigo também para as outras pessoas, porém, tínhamos menos motos e ciclistas, os acidentes eram em menor número, ou quase nenhum. As opções de diversão também eram limitadas.
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Com o aumento da população, o aumento de motos e bicicletas nas ruas e a chegada da famigerada “linha chilena” ao mercado, os acidentes se transformaram em tentativa de homicídio, uma vez que o poder de corte desta linha é quatro vezes maior que o poder de corte do chamado cerol e apesar de os dois estarem proibidos, infernizam a nossa vida. Todo dia tem uma família chorando a perda de um ente querido, a perda de um membro do corpo de alguém, vítimas desta maldita linha. E é só colocar no Google: linha chilena e dezenas de vendedores aparecem na tela. Só eu vejo? O ser humano está acabando.
Como tudo que está ruim ainda pode ficar pior, esta semana, vendo um programa esportivo na televisão onde a matéria mostrava jogadores da seleção brasileira de futebol, de primeira convocação, interagindo com os outros jogadores, já acostumados ao peso da “amarelinha”, soltando pipas. Os repórteres e comentaristas exaltavam o momento, a união e alegria dos meninos que podem nos trazer o hexacampeonato mundial, assim espero e torço.
A minha indignação me faz perguntar: Será que só eu vi a carretilha de linha chilena nas mãos deles? Isso não é crime? Como diz o poeta Zé Salvador, de quem tenho a honra de ser amigo e fã: Poizé!
OBS: A Lei 8.478/2019 proíbe qualquer material cortante para pipas. Prática enquadrada como crime e sujeita a pesadas multas e detenção.
OBS: Soltar, confeccionar, transportar e armazenar balões é crime. Lei de Crimes Ambientais, número 9.605/1998. Infratores sujeitos a penas de detenção de 01 a 03 anos, além de multas.
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Paulinho Freitas é compositor, sambista e escritor.








































































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