Quando Jesus virou as mesas
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Quando Jesus virou as mesas

Por Mira Pimentel


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Há uma cena do Evangelho que sempre me provoca.


Não é Jesus multiplicando pães. Não é caminhando sobre as águas. Não é realizando milagres diante da multidão.


É Jesus irritado.


Sim, irritado.


Aquele homem conhecido pela mansidão entrou no templo, viu a fé transformada em negócio, a espiritualidade reduzida a moeda de troca, e virou as mesas dos comerciantes. Não foi um gesto de ódio. Foi um gesto de indignação.


A mensagem era simples: a casa de Deus não poderia ser transformada em mercado.


Séculos se passaram e, às vezes, tenho a sensação de que as mesas voltaram para o mesmo lugar.


Mudaram os vendedores. Mudaram as roupas. Mudaram os discursos.


Mas a tentação continua a mesma: usar o nome de Deus para vender poder.


A fé, que deveria ser ponte, vira muro.


O Evangelho, que deveria acolher, vira instrumento de exclusão.


O amor ao próximo, que Jesus resumiu como o maior mandamento, é substituído por listas de inimigos.


E então surge uma pergunta inevitável: em qual momento alguns decidiram que Deus precisava de cabo eleitoral?


Jesus andava com pescadores, cobradores de impostos, prostitutas, doentes, estrangeiros e rejeitados. Nunca exigiu carteira ideológica na porta do Reino dos Céus.


Aliás, se dependesse de certos pregadores contemporâneos, talvez o próprio Cristo fosse barrado na entrada.


"Documento, por favor."


"Mas eu sou Jesus."


"Sim, mas em quem o senhor votou?"


A ironia é dolorosa.


Enquanto alguns gritam sobre moralidade, acumulam discursos de ódio.


Enquanto apontam pecadores, esquecem da própria arrogância.


Enquanto falam em salvação, parecem mais interessados em condenar.


Seriam reconhecidos pelo uso indevido da verdade.


Porque a mentira raramente chega vestida de mentira.


Os falsos profetas mencionados pelas Escrituras não seriam reconhecidos pelos chifres.


Ela costuma aparecer fantasiada de patriotismo, de religiosidade, de autoridade moral ou de suposta defesa da família.


E assim a confusão se instala.


As redes sociais amplificam versões, narrativas, boatos e montagens. A verdade passa a disputar espaço com o espetáculo.


E o espetáculo quase sempre fala mais alto.


Mas há algo que continua impossível de falsificar.


O ensinamento central de Jesus.


Não existe inteligência artificial capaz de adulterar isso.


Não existe algoritmo capaz de reescrever isso.


Não existe campanha política capaz de substituir isso.


"Amai ao próximo como a vós mesmos."


Simples.


Difícil.


Revolucionário.


Talvez seja justamente por isso que tanta gente prefira ignorá-lo.


Porque amar dá trabalho.


Odiar vem pronto.


No fim das contas, acredito que a História possui um estranho senso de humor.


Os homens que passam a vida inteira se imaginando gigantes acabam descobrindo que eram apenas passageiros.


Os impérios passam.


Os líderes passam.


As bandeiras passam.


As narrativas passam.


Mas a pergunta permanece.


O que fizemos com os ensinamentos daquele carpinteiro da Galileia?


E quando chegar a hora da grande prestação de contas, suspeito que ninguém será recebido com perguntas sobre partido político.


Talvez a única pergunta seja:


— E então... você amou?


Se a resposta for "sim", ótimo.


Se a resposta for "não", melhor começar a ensaiar uma saudação educada para quem estiver segurando o tridente.


Porque, pelo que dizem, ele anda com o ferro bem quente.


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Mira Pimentel é cronista.


 

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