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Cotidiano

Por Davi Freitas


Foto: Pixabay
Foto: Pixabay

Recebi uma proposta de um jornal, para escrever sobre o cotidiano.


Ela recebeu essa informação dita por mim antes da sua primeira mordida na torrada que acabamos de preparar na cozinha. Abriu um sorriso animado com os olhos brilhando.


No momento que recebi a proposta fiquei animado. Muito animado. Escrevo desde sempre e nunca tive muitas pessoas para quem mostrar, seria ótimo. No entanto, pensando melhor um pouco depois, senti medo. Medo de criar uma responsabilidade que me faça produzir algo à altura do que fiz na semana passada. Medo de cair numa rotina estranha. Medo de não saber como escrever sobre o cotidiano, pois normalmente não vivo muito fora de casa para ter aventuras ou observações viscerais do que acontece rápido demais e passa desapercebido.



Normalmente escrevo sobre nós dois e o que fazemos um ao outro. Nem sempre é bom (tanto o que fazemos um ao outro, quanto o que escrevo sobre isso), mas é algo comum de ser tema das minhas escritas. Contudo, o problema maior nisso tudo é o tema "cotidiano", que tende a ser substituído por um sinônimo de "rotineiro" ou "banal".


Não quero que nos tornemos isso.


Como se pudesse ler meus pensamentos ela terminou de mastigar aquela primeira mordida e me lançou um abraço aninhando a cabeça no meu peito. Sua touca de cetim que constantemente protege seus cachos me causou uma breve coceira na barba, fazendo meu rosto recuar. Ela me olhou em repreensão. Expliquei em silêncio que se tratava da touca apontando com o queixo. Ela riu e voltou ao abraço para me tranquilizar. Dessa vez com a cabeça tombada exageradamente para trás, em zombaria, me olhando nos olhos.


-Você consegue.


Não sei se ela falava sobre escrever semanalmente, sobre melhorar a cada crônica ou não nos banalizar.


Caminhamos até a sala com ela usando meus pés como andador enquanto equilibrávamos cada um seus cafés em um abraço desengonçado. É difícil explicar como deu certo e não derrubamos nada, é difícil até mesmo explicar como foi essa movimentação.


Difícil nos tornarmos algo banal, mesmo que escritos de forma preguiçosa.


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Davi Freitas nasceu em São Gonçalo, cria da cultura gonçalense, desde sempre conviveu com músicos, poetas e escritores. autodidata, aprendeu violão e bateria sozinho e junto com o irmão Lucas Freitas fez algumas apresentações até ter, por motivos profissionais, que mudar de estado. Como escritor, participou, pela Editora Apologia Brasil da Antologia em Tempos Pandêmicos e inicia agora sua trajetória no mundo das crônicas e contos. 

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