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Grandes feitos no Rocha - por Erick Bernardes


Foto: Pixabay
Foto: Pixabay

Há momentos na vida em que o senso crítico nos abocanha. Ficamos mais pensativos. De repente tudo nos comove. Certo trecho bonito de livro, uma letra interessante de música. Um filmezinho qualquer. Aí vêm as reflexões: o mundo globalizou-se, ficamos sobremaneira instruídos. Consequência disso é que cada vez mais suprimos nossas necessidades com invenções utilitárias.


Com Kati não foi diferente, ela poupa suas economias no intuito de pôr próteses para preencher uma falta, um vazio em seu peito, ou seja, quinhentos mililitros de silicone para suplementar seus seios. Algo utilíssimo por sinal. Certa vez me confidenciou:


_ Ahhh! Seu eu fosse como aquelas americanas com “air bags” enormes, faria maior sucesso lá no bairro. Todos iam saber da minha força de vontade e que tenho empenho pra levar um sonho até um fim.

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Há três anos que essa nossa amiga cismou com seus mínimos mamás. Kati realiza pequenos trabalhos como modelo fotográfico de revista e em promoções de jornais: COMPRE, CONCORRA E LEVE PARA CASA.


Quando sai com a galera, leva apenas cinco reais enfiados no bolso e um cartão bilhete único, para não ficar a meio caminho das diversões que costuma participar. No pagode bebe cerveja sem gostar, come salgado sem gastar. Porque todo mundo compra uma loirinha gelada e um tira-gosto para curtir. E no meio da bebedeira ninguém sabe mais quem pagou ou não. Aquele camarada que gastou para “molhar o bico” nem liga de ver a econômica amiga com a boca no gargalo e a língua saliente.



A futura Pamella Anderson não pode movimentar sua conta poupança. Razão pela qual, sempre tem alguém que carrega consigo sentimentalismos elevados que permitem trocar uma ou outra garrafinha de “Ice” por beijos sôfregos e amassos nada gelados. Intercâmbios ultramodernos de gestos e fortes abraços que acabam em expressões maiores e mais contundentes.


Ano passado, na casa de praia que seus amigos alugaram para passar o carnaval em Cabo frio, Kati resolveu mudar o rumo da sua vida. Decidiu ganhar dinheiro para acelerar o processo de superinflação mamária. Como não fez parte da lista das despesas da casa de veraneio, ela teve uma ideia, gastou dez por cento da poupança na esperança de ampliar o seu capital. Empreendedora de primeira ela pensou (por ela mesma) em comprar quinhentas caixas de leite para concorrer à promoção da marca “longa vida” Ordenha preciosa. Recortou os úberes das vaquinhas que estampam o produto lácteo e os enviou à fábrica de laticínios do concurso em questão.


Recentemente, noticiaram que Kati ganhou uma moto zerinho zerinho num desses sorteios. E, até o momento, pelo que sei, ela concorre a tudo, até a capas de telefone celular para seu Iphone sem crédito. Dizem que a nossa amiga vende quase todos os itens dos concursos que ganha, ficando assim famosa pelas suas frequentes premiações.


O que se sabe dela, mais recentemente, é que passou a ser conhecida como a garota propaganda do leite desnatado. Nas poucas vezes que a encontro, digo um oi sincero e até qualquer hora. E, se der tempo, fixo o olhar no seu decote, para poder saber em que altura se encontra a realização do seu grande sonho.


Enfim, das conquistas de Kati tiram largas lições lá na comunidade. E, na próxima eleição, virá até como candidata a vereadora. Seu Slogan já é filosofia na boca da população masculina: “Todos conhecem os grandes feitos da Katiane, quem não os conhece não sabe o que é firmeza”.

 

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Erick Bernardes é escritor e professor mestre em Estudos Literários.




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