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Judith

SÃO GONÇALO DE AFETOS


Por Paulinho Freitas   

 

Representação e Geni e o Zepelin, de Chico Buarque
Representação e Geni e o Zepelin, de Chico Buarque

Ela é querida por todo o bairro, tem mais de vinte afilhados. Seus dotes culinários são divinos. Quando cozinha, os vizinhos ficam com a boca cheia d’água. 


As crianças não passam em sua porta ao irem à escola, sem gritar:


_Abença dinda Ju! 


Ela aparece na janela, dá um Deus abençoe pra geral e sorri lindo como um fim de tarde de outono na Praia das Pedrinhas. 


Quando Judith faz bolo, cada um mais gostoso que o outro, sempre dá um pedacinho a cada vizinho de porta e das laterais de sua casa. Judith tem um bom humor incrível, uma energia positiva que contagia todo mundo. As mulheres da rua onde mora pedem seus conselhos e saem felizes com a resposta recebida. Judith é um ser de luz. 


O que ninguém sabia é que Judith tem um segredo, um grande amor não correspondido. Suspira por dentro quando ele passa deixando no ar um perfume árabe, que ela sente a distância e guarda para si como se fosse um remédio. Mas este grande amor nem nota sua existência, lhe dá desprezo, não lhe dirige a palavra e ameaçou agredi-la várias vezes quando ela tentava uma aproximação. 


Erlandir e seu ódio por Judith vem do fato de ser machista convicto, homofóbico e sem nenhuma vergonha de dizer isso em alto e bom som para quem quisesse ouvir. Defende com unhas e dentes uma política voltada para a moral e bons costumes, o respeito a família tradicional e o tratar os de pensamento diferente, em suas diversas formas como criminosos. Esse comportamento atrai Judith, que acha que se ele passar uma noite com ela, na manhã seguinte estará apto a ser eleito o melhor homem do mundo. Quando Judith fala isso, cai na gargalhada e todo mundo ri  junto. 


Judith é uma mulher trans, sua família é do Ceará, uma família abastada e tradicional. Quando Judith decidiu assumir sua verdadeira alma, o pai a pôs para fora de casa. Sozinha no mundo veio parar em São Gonçalo e aqui conseguiu com seu trabalho se estabelecer, humildemente, mas confortável e feliz. 


Em janeiro seu pai faleceu e para o espanto de todos, na abertura do testamento ficaram sabendo que a maior parte da fortuna da família seria administrada por Judith. Ela quando soube chorou por uma semana, sonhava com a reconciliação e a aceitação do pai. Viajou para sua casa e até sua grande paixão que é o carnaval deixou para trás. Vai ter muito trabalho para ajeitar as coisas antes de voltar para São Gonçalo, terra que a acolheu e onde fez uma grande legião de amigos, compadres, comadres e amores. 


Quanto à Erlandir, vou ser obrigado a contar um segredo a vocês. Não sou baú, não guardo nada. Tenho mania de decorar a placa do carro das pessoas que conheço. A do carro de Erlandir termina com o numeral nove. O resto não posso dizer. 


Noite dessas, voltando da reunião semanal da ala de compositores do GRESU Porto da Pedra, na esquina da casa em que resido, um carro está parado embaixo de uma árvore. O carro balança. Entrei em casa, mas curioso, fiquei atrás do portão para ver quem iria sair do carro. Não demorou muito, e uma das travestis que se prostituem naquela esquina sai do carro.


O motorista dá uma ré e sai devagar pensando estar protegido pela escuridão madrugada. Coitado, eu estava lá e vi a placa quando o carro passou na frente do portão. Final nove e o resto era a placa do carro de Erlandir, o homem da moral e bons costumes, defensor da família tradicional e da criminalização dos que pensam diferente. 


Acho que Judith se livrou foi de um tralha sem tamanho. Um Zé Arruela. Cara babaca! 

 

Obs: hoje completamos cinco anos da coluna São Gonçalo de Afetos. Muito feliz e agradecido pela confiança em mim depositada. Feliz por ter dado muitas gargalhadas e também me emocionado muito. Feliz por você ter lido meus trabalhos.  


Vou comemorar quando Judith voltar. Ela prometeu fazer uma buchada de bode pra gente comer. Que venham mais cinco anos. Querendo Deus e o Jornal DAKI permitir. 


Obrigadoooooooooo!!!!!! 


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Paulinho Freitas é sambista, compositor e escritor

 

 

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