top of page

O Circo chegou!

SÃO GONÇALO DE AFETOS


Por Paulinho Freitas

Foto: Pixabay
Foto: Pixabay

Durante quinze anos de minha vida estive numa escola de circo. Todos os anos via chegar as crianças, os jovens e os adolescentes. Apesar de turmas diferentes, tamanhos e idades diferentes, para mim, eram todos artistas circenses de primeira linha. A gurizada, ao primeiro contato com as pernas de pau, monociclos, aparelhos de malabares e outros, já saiam exercitando como velhos profissionais do ramo. Bastava alguns minutos para que eles aprendessem o básico e daí para frente era só inventar novos números e seguir em frente.  


As aulas eram animadas, Aonde tem criança a alegria faz morada. No circo todos tem o mesmo tamanho, a mesma cor, o mesmo sexo, o mesmo nível. No circo é impossível fazer alguma coisa sozinho, tem sempre uma mão amiga para te ajudar. Quando você entra num circo, se prestar atenção, o bilheteiro é o apresentador do espetáculo. O palhaço passa por você nos intervalos vendendo pipoca. Aquela linda bailarina, com o sorriso que você vai levar na memória para sempre é a mesma menina simpática que vende balas e doces. No circo, cada um é todo mundo. 


Meu coração sempre escolhia alguém para acolher e proteger e esse alguém nem sabia disso. Ficava torcendo para que desse tudo certo e que fosse o destaque nos exercícios. Tudo o que estava a meu alcance eu fazia por aquele ou aquela. 



Vi muitos romances começando, muitos terminando, ouvi muitas confidências e me sinto orgulhoso por isso. O coração de Alguns também me escolhiam como protetor e protegido. Alguns relacionamentos que lá começaram já duram uma década e estão cada vez mais forte. Já vejo, pelas redes sociais, filhos destes, seguindo o caminho das artes. O circo é magia, é mágica, é mistério, é inspiração. Compus até algumas canções infantis sobre o tema. O circo é tanta coisa boa que nem sei explicar. 


O circense não fica sem dinheiro nunca. Por pior que esteja a situação, três bolinhas de malabares, três claves ou uma roupa de palhaço junto a um semáforo são como um caixa eletrônico, a senha é o espetáculo. Todo carro que passa deixa algum dinheiro e rapidamente se faz a diária. 


Por ver o sofrimento  nos ensaios, o acerto tentado dezenas, centenas de vezes, as lágrimas nas contusões ou tombos durante as tentativas, nunca assisti a um espetáculo, ficava lá fora torcendo e quando o povo aplaudia era porque o número tinha dado certo. Aí eu entrava no banheiro ou procurava um lugar para ficar sozinho e chorava de alegria. 


Meu semblante era sempre sério, alguns alunos tinham até medo de me pedir alguma coisa. Mal sabiam que aquele era o meu papel e que minha vontade era pegá-los no colo a cada vez que caiam. 


O circo social está em todo país, educando, dando oportunidades, fazendo pessoas e profissionais melhores. Mesmo que a criança não seja um artista, jamais será a mesma criança ou a mesma pessoa depois de passar por  lá.  


Vi alguns deles se transformando em instrutores, vi companhias se formando, profissionais competentes nos palcos e coxias, criando e atuando. 


Em todos os lugares do mundo tem um circense brasileiro que começou num circo social. Quando vejo um deles atuando na televisão, quando vejo o anúncio de um novo espetáculo onde algum deles estão presentes, quando os maiores circos do mundo vem ao Brasil e em sua trupe tem um dos alunos que vi crescer, meu coração se enche de orgulho, os olhos lacrimejam e sinto aquele friozinho gostoso na barriga. Eu também estou ali “respeitável público.” 


Vivas ao Circo. 


Nos siga no BlueSky AQUI.

Entre no nosso grupo de WhatsApp AQUI.

Entre no nosso grupo do Telegram AQUI.


Ajude a fortalecer nosso jornalismo independente contribuindo com a campanha 'Sou Daki e Apoio' de financiamento coletivo do Jornal Daki. Clique AQUI e contribua.


Paulinho Freitas é sambista, compositor e escritor.


POLÍTICA