Verão, as chuvas e as obras que não foram realizadas em SG
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Verão, as chuvas e as obras que não foram realizadas em SG

Por Oswaldo Mendes


Alagamento no bairro da Palmeira/Foto: EBC
Alagamento no bairro da Palmeira/Foto: EBC

           


No primeiro ano de Governo, historicamente, a desculpa é que recebeu assim e não está contemplado qualquer valor para obras.


Já no segundo ano de mandato é ano de eleição e assim vai eleger um familiar para o Poder Legislativo, modelo adotado desde 1988 na cidade, excetuando as gestões de Bravo e Zé Luiz Nanci.

           

Nesse segundo ano é ano de impermeabilizar o solo, colocar quebra-molas em frente da casa de tudo que for eleitor que pedir e jogar o esgoto para os corpos hídricos, tornando-os valões imundos. Aqui se luta para cortar árvores.


Cada região tem seu dono e, para ser dono, não há independência no ato de votar. Vimos há poucos dias na votação, na Câmara Municipal, quando se aumentou o IPTU da cidade em que dos 27 vereadores, apenas três votaram contra.


Um gigantesco erro que houve na cidade foi colocar asfalto em cima de paralelepípedos, mas para quem buscava reeleição foi um grande acerto.


“Os fins justificam os meios”, escreveu Nicolas Machiavel no livro “O Príncipe”.


Na verdade, a impermeabilização do solo e a vontade da população - em não pisar mais na lama - não veio completa, pois não foi realizado obras para os novos caminhos das águas pluviais (da chuva) e até mesmo do esgoto doméstico.


Passou a eleição. E aí não é mais problema de quem se elegeu e sim da população, a qual, sem conhecer os efeitos, pediu o asfalto, mas não fizeram drenagens e separação de águas.


Uma covardia que se repete.


Quem conhece, se advertir a população é enquadrado como oposição ou uma agressão pessoal (utilização da Teoria do Discurso).


Para a população, a sua necessidade está resolvida, pois, na verdade, os pés na lama nunca mais serão colocados, mas agora quando chover, entrará água de esgoto na sua casa. Causa e efeito.


Obra debaixo da terra não dá voto - é o lema.


Quem já não ouviu: “Isso é outra obra e será realizada em momento adequado”, ou seja, empurrou com a barriga.


A quase totalidade das pessoas não sabem em quem votou nas últimas eleições e eles, os políticos, trabalham com isso. Temos também a miséria e o desemprego, assim, em períodos eleitorais, muita gente trabalha, seja com promessas ou valores, para políticos que mantêm a mesma receita há no mínimo meio século, período que acompanho os pleitos.


Atualmente se fala muito que vai chover, por exemplo, 20 milímetros. Isso significa 20 litros por metros quadrados. Isso não parece nada, mas vamos fazer um pequeno cálculo.


Imaginem uma rua de 300 metros de comprimento por 10 metros de largura, ou seja, tem uma área de 3.000 metros quadrados. Essa rua foi impermeabilizada, mas não instalaram uma nova rede de esgoto e tampouco de águas pluviais adequadas às novas necessidades, inclusive com micro drenagens – inexistente em quase toda a cidade.


A chuva que acontecia no tempo de ruas sem asfalto ou com paralelepípedos era, na quase totalidade, absorvida pelo solo e, com o asfalto, ela vai procurar novos caminhos, logo, a obra completa não foi realizada.


Voltando ao nosso exemplo, teremos então um volume de chuva nessa pequena rua de 3.000 x 20 = 60.000 litros.


Imaginem agora numa pequena bacia hidrográfica de 1 quilometro por 1 quilometro. Isso daria uma área de 1 milhão de metros quadrados e para, também, o  quantitativo de 20 milímetros de chuva, resultaria no valor de 20 milhões de litros.


O problema não é o quantitativo de chuvas, mas as drenagens, desmatamento, sem reflorestar, impermeabilização integral do solo, obras debaixo da terra, separação de águas pluviais com as de esgoto e funcionamento das ETES – Estações de Tratamento de Esgoto, a maioria são verdadeiros elefantes brancos.


Sem a absorção de água pelo solo os rios subterrâneos desaparecem e as árvores morrem, ficando a cidade cada vez mais sem cobertura vegetal.


Notem que muitas residências já calçaram integralmente e cortaram todas as árvores de seu quintal, até mesmo para “não sujar” de folhas.


Outro problema crônico da cidade é o desmatamento. Matas funcionam como esponjas para a chuva. Sem matas, a chuva cai no solo e carrega barro e lama, os quais entopem as redes de esgoto, as quais, como já escrevemos, não há separação de água da chuva e esgoto doméstico.

Esse é o modelo adotado, há décadas, na cidade. Para isso, é preciso ter baixa escolaridade, baixa criticidade, baixa autoestima e pessoas contratadas pelo sistema que acenem que esse é o melhor quadro, estilo Capitão-do-Mato, para defenderem, sempre, os interesses da Casa Grande, ou seja, do patrão..


Então, se chover, vão jogar com a sorte de não chover forte na cidade e, se assim acontecer, vão alegar que foi um dilúvio. Aí entra outra questão. Coloca-se e compara com temas religiosos e logo, sem controle ou porque a população merecia este castigo. Errar não é “umano”. É imprudência, imperícia ou negligência.


Conhecer globalmente e atuar localmente.


A frase acima é da questão de Educação Ambiental e esse é um problema gigantesco na cidade: falta de referência ou omissão.


Aqueles que se formaram num curso que pode dar uma maior criticidade, um melhor salário, saíram, em sua maioria, da cidade e, assim, os casos de sucesso da cidade, moram em outras cidades.


Estudei na Universidade Católica de Petrópolis, idos de 1978 e eu adorava, dentre outras, as aulas de CMR – Ciências Morais e Religiosas, ministradas pelo saudoso Padre Francisco do Aguiar Ribeiro. Sempre fui ávido leitor, não tinha dinheiro, mas lá tinha uma belíssima biblioteca. Sabia que ali, universidade, era minha única chance na vida. Não sei se consegui algo, mas continuo lendo muito e é muito bom.


Num belo dia perguntei ao citado Padre qual foi o pecado de Pôncio Pilatos no ato de “lavar às mãos”, e ele me respondeu: a omissão.


Há poucos dias, conversando com um morador de São Gonçalo, calouro de Engenharia numa Universidade Federal, ele me disse que a cidade não era mais local para ele e que, ao se formar, sairia imediatamente da cidade.


Essa falta de pessoas com criticidade, de cérebros, reflete muito nas obras da cidade, nos quadros de cargos da cidade e na qualidade de vida.


Estrutura de Poder, pode ser formada por um conjunto de dados como o dinheiro, cultura, política, esporte, educação formal, rede de conhecimento (Network) persuasão e outros itens. Notem que, com apenas um único dado, sua estrutura de poder é frágil, daí, para o pobre conseguir buscar o poder é bem mais acessível a busca pelo esporte, política e cultura, atingindo assim o dinheiro, rede de interesses e a educação formal.


Isso explica na cidade tantos jovens tentarem ser jogador de futebol, político ou cantor de pagode. Notem que o caso se inverte quando alguém com ótima estrutura financeira, obtido de forma legal, já com educação formal concluída procura a política, mas o objetivo é o mesmo: Poder, sendo que no primeiro caso dificilmente conseguem e no segundo é apenas manutenção, muitas vezes de estrutura de negócios ou familiar.


Historicamente, a maioria das pessoas, que possui cargo na cidade, são de sexo masculino, brancos, de posição política de direita, não moram aqui e, como muitos políticos, só possui aqui domicílio eleitoral. A cidade é gerida pela direita há décadas.


Com as obras do MUVI, além de ter aumentado, e muito, a temperatura da localidade, diminuiu também o número de pessoas que ali se exercitavam; acabaram, drasticamente, com a maioria das árvores, bem como com as atividades em que eram formadoras de empregos e renda. Acabou!


Agora vem as chuvas. O grande teste das águas. Uma grande piscina refletindo para as localidades mais baixas.


Quem paga IPTU não vê varrição nas ruas secundárias e capina, troca de iluminação tem que se submeter a alguém. Funcionário com salários defasados e com gratificações retiradas. E o qual a defesa para o aumento gigantesco de IPTU.


Aqui, em Santa Catarina, a vergonha continua. A Rua Clovis Belivaqua e a Rua Antônio Bragança são um horror e nada se fez, efetivamente. E tem ali a fábrica de Mineirinho e depósito de outra fábrica de bebida. Nessa hora eu penso, mais uma vez, no aumento do IPTU com esgoto até meio metro e entrando nas casas.


A Rua Jurumenha pode ser considerada a rua de testes da Companhia de Águas. Buracos, obras em qualquer dia e horário, falta de limpeza e varrição, asfalto ondulado, quebra-molas sem nenhuma sinalização, bueiros entupidos e desrespeito. Não é possível que ninguém consiga não ver isso. Sem contar nas constantes contramãos na via, que os motoristas fazem. O ambiente reflete o ser humano.


Se formos no bairro do Engenho Pequeno colocaram mais de três dúzias de quebra-molas nas vias. Sinalização horizontal e vertical conforme a Resolução do CONTRAN na cidade será que é respeitada?


Assim acontece o círculo vicioso. O ambiente hostil afasta pessoas que podem sair da cidade e as demais, muitas vezes jovens, ficam somente com outras referências e modelos. O ambiente é forjado para tal. Ação antrópica.


Em gestão, essas referências são denominadas benchmark.


Assim, Benchmark é uma ferramenta de gestão que envolve a comparação sistemática dos processos, pessoas, produtos e desempenho de uma empresa com os melhores do mercado, ou da sua região, ou com líderes de um setor, para identificar boas práticas, aprender com elas e aplicá-las para aprimorar seus próprios resultados, metas e eficiência. 


Com quem o jovem suburbano se compara? Quais são os exemplos de vitória no seu ambiente? Aí fica a importância de quem melhora não sair do subúrbio para dar a chance para outros tê-lo como referência, mas é necessário que também melhorem o ambiente.


Pode-se melhorar o ambiente reduzindo o desmatamento e reflorestando, combatendo queimadas, combatendo a poluição, repovoando ecossistemas, combatendo a degradação do solo, usando adequadamente os Recursos Naturais. 


Notem que a Sociedade cria e mantém bolsões de pobreza e violência para ter, sempre, mão de obra barata a qualquer momento, assim os subúrbios são mantidos para não se alterarem, inclusive por políticos medíocres. Essa baixa autoestima da cidade foi forjada.


O morador de subúrbios como Madureira, Tijuca, Barreto, Nilópolis, Cachoeiras de Macacu sente orgulho da sua cidade. O morador de São Gonçalo não. A Tijuca, Portela, Beija-Flor, Viradouro e o Império Serrano levantam a autoestima do suburbano. Esse é o motivo pelo qual a Escola de Samba Porto da Pedra, que tem seu lema “Paixão e orgulho de São Gonçalo” é tão atacada.


Notem a letra e o intuito do samba do GRES Unidos da Tijuca do carnaval de 2026 que cita:


“Muda sua história, Tijuca!

Tira do meu verso a força para vencer

Reconhece seu lugar e luta

Esse é nosso jeito de escrever.”


Assim se cria e mantém um repositório de mão de obra barata, com baixa autoestima e baixa criticidade, moldado para chamar terceiros de doutor. Assim, o ambiente hostil faz seu papel e molda.


“Quem não mede, não gerencia”.

 

Os jovens que permaneceram na cidade, não tem exemplos de pessoas que fizeram uma faculdade, passaram num concurso público ou abriram uma empresa ficam também sem uma Rede de Contatos – Networking, não tem referencial de excelência. Isso para o suburbano, muito atrapalha.


Com esses exemplos eles podem aprender que não é só ter dinheiro para comprar um carro e cordões de ouro. Outro olhar da vida.


Há profissões, como Médico, Advogados, Enfermeiros, Psicólogos e outras, as quais você respeita. Tem algumas profissões que as pessoas têm medo. Ninguém chama um agiota num jantar de família.


Assim a roda gira. Um sistema montado para não mudar.


Enquanto isso, eles rezarão para que não chova forte por aqui, principalmente por ser, este ano, um ano eleitoral, mas se der errado e chover muito, basta colocar a culpa num ente religioso, arranjar outro problema administrável para tirar esse da mídia e até lá a população já esqueceu das chuvas e do aumento do IPTU. O voto será trocado por espelhos e bugigangas.


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Oswaldo Mendes, Mestre em Sistemas de Gestão.

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