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A meia do presidente - por Erick Bernardes


Foto de Erick Bernardes
Foto de Erick Bernardes

Esse moço vive no mundo da imaginação? Não, de jeito nenhum, vive no universo da ficção como projeção do que de repente acontece, respondeu para mim mesmo meu eu-interior. Ele é um homem que acredita na ciência, arregaça as mangas, segue o instinto e torna palpável o pensamento. Transforma ideias em material científico, isso sim.


Enquanto eu reparava na meia decorada do pé direito — com o sistema solar desenhado em bordado, por linhas coloridas sobremaneira arredondadas — de nada menos que o presidente fundador do Clube de Astronomia Leonardo Da Vinci, imaginara a luta desse camarada para fazer do sonho realidade. Pois é, refiro ao Milton Machado, fundador do clube acima citado e localizado em São Gonçalo. Ele recebeu recentemente o título de imortal da Aglac. Tomou posse em uma das cadeiras da Academia Gonçalense de Letras, Artes e Ciências no dia 21 de julho de 2022. Justamente: letras, artes e ciências. Mas o que as letras e as artes têm a ver com a ciência?


Durante o instante no qual o evento de posse ocorria, no momento exato em que os convidados se abraçavam, apertavam as mãos, posavam para fotos, a mente do cronista tecia reflexões. Exatamente, o cérebro trabalhando, conjecturas, bastante gente importante — e a cerimônia de diplomação “rolando”. A posse do Milton me provocou as ideias. Ciência alguma existe sem ficção, base inquestionável de um bom conto, romance, novela, enfim. Em outras palavras, nada existe sem a criação. Vale lembrar que Júlio Verne escreveu um livro sobre um submarino antes do próprio veículo aquático ser concretizado. Quem não se lembra do desenho dos Jetsons, apresentando a nós os telefones celulares e computadores com aulas on-line antes mesmo de isso tudo vir a existir? Sim, caros leitores, qualquer projeto científico é antes algum tipo de artefato, um produto ficcional, por assim dizer. Um arquiteto imagina e desenha a planta antes de executar a obra, um cientista espacial elabora na mente (projeção) seus mais complexos trabalhos astronáuticos. Nesse sentido, o professor Dau Bastos postulará:



Na verdade, a mente fabrica ficção movida por uma necessidade tão vital quanto aquela que o corpo tem de respirar. Assim atribui algum sentido ao que acontece antes e depois da vida, da mesma forma que viabiliza a execução mesmo dos gestos mais simples da existência. Ao encontrarmos um conhecido, por exemplo, o cérebro antevê (portanto ficcionaliza) o movimento de esticar a mão com que o cumprimentamos. Daí a ideia de ser humano algum escapar à condição de ficcionista (2017, p. 46-47).


Isto posto, qualquer ação humana é pensada antes de acontecer. Andar, trabalhar, planejar situações cotidianas, juntar dinheiro. O menino idealizando o primeiro beijo. A gestante tricotando a touquinha de lã que esquentará a cabeça do seu tão esperado bebê. Imagine! As relações entre homens e mulheres sendo traçadas por economias de pensamentos que vislumbram o momento seguinte num continuum de ações.


E assim se deu: a meia que calçou o pé destro do presidente do clube de astronomia de SG se mostrou a projeção deste texto. O vir a ser imagético para a construção da crônica de hoje. Isso sim são letras, artes e ciências, e que começaram com o pé direito de um apaixonado por astronáutica.


Nota: O clube de Astronomia Leonardo Da Vinci está localizado na Rua Major Januário Ribeiro, 88 Sb - Lindo Parque - São Gonçalo - RJ - CEP 24420-330. Tel.: (21) 99102-0202.


Referência:

BASTOS, Dau. “O poder do artefato e o futuro da poesia” In: Orgs. NASCIMENTO, Luciana; PIETRANI, Anélia; OLIVEIRA, Paulo César. Riscos da escrita, rastros da memória: homenagem à professora Lúcia Helena. Rio de Janeiro: Letra Capital, 2017.

 

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Erick Bernardes é escritor e professor mestre em Estudos Literários.




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