Precisamos de Colo
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Precisamos de Colo

Por Odimar Junior

Foto: Freepik
Foto: Freepik

Outro dia, aconteceu-me um evento que me fez recordar de quando eu tinha aproximadamente doze ou treze anos de idade. Eu e minha mãe voltávamos do Alcântara e descemos no ponto de ônibus para irmos para casa. O ponto era (e ainda é) distante cerca de quatrocentos metros da nossa residência.

Eu estava cansado e, na metade do caminho, pedi colo à minha mãe. Minha mãe, que carregava algumas bolsas, não cedeu aos meus rogos de criança exausta e fez-me ver “o meu tamanho” (sempre fui muito magro e baixo para a idade). Ao negar-me peremptoriamente o colo, entendi, naquele instante, que deixara de ser criança — até porque nunca mais tive colo novamente.


A vida é assim mesmo: num dia somos crianças e, rápido como fumaça, já não somos mais e caminhamos, inevitavelmente, para deixar de ser.. Fazer o quê, se essa é a única certeza que temos na vida?

Como diria Shakespeare pelos lábios de Hamlet: “ser ou não ser, eis a questão”. Mas eu diria: ser e não ser é a nossa questão, porque, quando somos uma coisa, não somos outra. Quando somos crianças, não somos adultos; quando somos adultos, não somos mais dignos de colo (será?).


E como fica a eterna criança em nós que, em posição fetal, implora colo? Bem, uma boa terapia ajuda com isso!

Mas o que me aconteceu, afinal, que me fez lembrar desse evento, que me despertou para a noção de que não era mais criança, de que não teria colo novamente? Direi à frente. Por enquanto, bastam-me as lembranças da infância ficando para trás.


Fui crescendo, preocupado em estudar e em conseguir algum meio de sustento, embora não soubesse qual seria. Essas são preocupações de alguém que não anda de colo em colo, que não pode chorar nem fazer pirraça quando não consegue o que quer. Não adianta.


O “não” ao colo foi só o começo dessa vida adulta que adultera toda a nossa estrutura pueril, transformando-a para sempre, até que a morte nos separe deste corpo. Ser para depois não ser é uma questão irremediável.

Nesse ínterim, seja. Procure ser mais do que ter. Seja íntegro, seja honesto, seja feliz. É isso.

Ah! E o que me fez lembrar desse episódio?


Bem, isso aconteceu há cerca de quarenta anos. Hoje, minha mãe mal consegue andar, por estar com Parkinson. Outro dia, ela foi me visitar em casa e eu precisei carregá-la no colo. Ao pegá-la, imediatamente me veio essa lembrança que compartilho com vocês.


Foi triste ter que carregá-la por causa da situação em que ela se encontra, mas fiquei feliz por poder retribuir pelo tempo em que ela me carregou — e o farei até o dia em que não puder mais.

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Odimar Junior, maratonista amador e que deseja continuar correndo por muitos anos, a menos que o joelho impeça.

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