SOLIDÃO A TRÊS
- Jornal Daki
- há 32 minutos
- 2 min de leitura
SÃO GONÇALO DE AFETOS
Por Paulinho Freitas

Depois de ser posto para fora de um casamento de mais de trinta anos, Deusedino perdeu o chão, queria entender o que estava acontecendo. Passou a maior parte da vida trabalhando de segunda a segunda praticamente, quase não tinha folga e quando tinha, ela sempre arranjava alguma coisa para ele consertar, fazer a mudança de móveis de lugar ou uma visita na casa da mãe dela que demorava o domingo todo. Quando voltava para casa era tomar banho e cair na cama para descansar o corpo para de novo encarar mais uma semana de trampo.
No passado Deusedino era homem da noite. Pé de valsa na gafieira, bom de baralho e sinuca. Quando conheceu Maristela abandonou tudo, tomou prumo, cuidou da família, criou os filhos e agora, quando pensou que iria se aposentar e finalmente poder dar aquele rolezinho à tardinha, jogar uma sinuquinha com os velhos amigos, tomar aquela cervejinha e voltar para casa feliz, foi surpreendido por uma denuncia anônima de traição. Ele jura não ter feito, mas ela diz que quem falou não mente. – engraçado, quem acusa não mente, mas não prova e o réu tem que se virar nos trinta para provar o óbvio, sem sucesso.-
Apesar de implorar clemência e jurar por todos os santos e espíritos dos já falecidos, ela não o perdoou, mandou que catasse suas roupas e seguisse seu rumo.
Pobre Deusedino. Pediu asilo na casa de um irmão, passou dias trancado no quarto, só saía para se alimentar e quase não falava. O irmão já se preocupava pensando que ele iria tentar o suicídio.
Três longos meses se passaram, a verdade veio a tona, Deusedino era inocente. A esta altura do campeonato ele já estava acostumado a olhar para as paredes e parecia gostar de sua própria companhia e de andar de mãos dadas com sua própria sombra.
Maristela bem que tentou a reconciliação, pediu perdão, humilhou-se, mas Deusedino, apesar de ainda amá-la, estava muito machucado e resolveu que dali para frente iria lamber suas feridas sozinho.
Sexta-feira passada, uma madrugada de lua, depois de um temporal, Deusedino resolveu sair de casa. A rua estava deserta e ele caminhava pelo meio dela, acompanhando a risca do asfalto. O céu estava cheio de estrelas e lá no meio aquela lua que iluminava o mundo parecia convidá-lo para beber de seus raios inundados de vida. Deusedino olhava para ela, para as estrelas do céu e para o asfalto molhado refletindo sua silhueta. Respirou fundo, sorriu complacente e e sussurrou: _ Agora sou eu, minha amada lua, as estrelas do céu e a rua, vamos dançar? E como um Gene Kely, cantando Singing in The Rain, saiu bailando madrugada adentro.
O coração dele está ferido, o coração dela está ferido e a mentira está feliz, fez mais duas vítimas e os três estão sós.
Obs: qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência.
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Paulinho Freitas é sambista, compositor e escritor


















































