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Quando Kafka Gritou — e Ainda Grita

Por Mira Pimentel


Gerado por IA
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Quando A Metamorfose foi lançada, no início do século XX, o mundo ainda tentava compreender o impacto daquela imagem brutal: um homem que acorda transformado em inseto. O choque não estava apenas na estranheza da cena, mas na revelação silenciosa que ela carregava. Algo estava errado no modo como a sociedade passava a enxergar o indivíduo.


Críticos se dividiram.

Alguns viram ali uma obra sombria demais.


Outros perceberam um retrato antecipado do homem moderno: solitário, funcional, substituível.


Para o leitor comum, havia desconforto.


Não era uma história agradável.


Não oferecia redenção fácil.


Não prometia esperança.


Kafka não escrevia para consolar.


Escrevia para acordar.


Naquele tempo, o sistema ainda se apresentava como promessa.


A indústria crescia.


O progresso era celebrado.


O futuro parecia organizado, previsível, promissor.


A barata era metáfora.


O esmagamento era simbólico.


Hoje, talvez nem fosse preciso transformar um homem em inseto.


Bastaria deixá-lo humano.


Se Kafka publicasse seu livro agora, o espanto talvez fosse menor.


O reconhecimento, imediato.


A identificação, quase automática.


A engrenagem já não se disfarça.


O discurso da ordem substituiu o da promessa.


O poder deixou de seduzir — passou a impor.


Ao longo das últimas décadas, o que era tensão institucional foi se transformando em ruptura aberta. O descrédito nas urnas, a negação da escolha popular, a normalização do autoritarismo, o flerte perigoso com a intolerância, o desprezo pelo sofrimento coletivo. Tudo isso foi se encadeando como peças previsíveis de um mesmo mecanismo.


A política deixou de ser projeto.


Passou a ser domínio.


E quando o domínio se instala, a dignidade se torna concessão.


Não foi um processo súbito.


Foi gradual.


Quase pedagógico.


Primeiro, a dúvida sobre o voto.


Depois, o descrédito da democracia.


Em seguida, a exaltação da força.


Por fim, a banalização da violência simbólica e real.


Enquanto isso, o povo seguia trabalhando.


Acordando cedo.


Pagando impostos.


Tentando sobreviver.


O esmagamento já não precisava de metáforas.


Kafka gritava porque via o que se aproximava.


Hoje, grita-se porque se vive dentro disso.


O homem barata tornou-se o cidadão descartável.


A família que rejeita virou a sociedade que ignora.


O quarto fechado tornou-se o confinamento econômico, social e emocional.


Tudo funciona.


Mas nada respira.


O sistema gira.


Mas não acolhe.


E assim, entre leis que não protegem, discursos que não representam e poderes que não escutam, o indivíduo vai se transformando lentamente — não em inseto, mas em número, estatística, peça substituível.


Kafka escreveu como quem alerta.


O presente responde como quem confirma.


Talvez por isso sua obra continue tão atual: não porque previu o futuro,

mas porque compreendeu cedo demais o mecanismo da desumanização.


E enquanto esse mecanismo existir, Kafka continuará gritando.


Mesmo em silêncio.


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Mira Pimentel é cronista.

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