Quando Kafka Gritou — e Ainda Grita
- Jornal Daki

- há 2 horas
- 2 min de leitura
Por Mira Pimentel

Quando A Metamorfose foi lançada, no início do século XX, o mundo ainda tentava compreender o impacto daquela imagem brutal: um homem que acorda transformado em inseto. O choque não estava apenas na estranheza da cena, mas na revelação silenciosa que ela carregava. Algo estava errado no modo como a sociedade passava a enxergar o indivíduo.
Críticos se dividiram.
Alguns viram ali uma obra sombria demais.
Outros perceberam um retrato antecipado do homem moderno: solitário, funcional, substituível.
Para o leitor comum, havia desconforto.
Não era uma história agradável.
Não oferecia redenção fácil.
Não prometia esperança.
Kafka não escrevia para consolar.
Escrevia para acordar.
Naquele tempo, o sistema ainda se apresentava como promessa.
A indústria crescia.
O progresso era celebrado.
O futuro parecia organizado, previsível, promissor.
A barata era metáfora.
O esmagamento era simbólico.
Hoje, talvez nem fosse preciso transformar um homem em inseto.
Bastaria deixá-lo humano.
Se Kafka publicasse seu livro agora, o espanto talvez fosse menor.
O reconhecimento, imediato.
A identificação, quase automática.
A engrenagem já não se disfarça.
O discurso da ordem substituiu o da promessa.
O poder deixou de seduzir — passou a impor.
Ao longo das últimas décadas, o que era tensão institucional foi se transformando em ruptura aberta. O descrédito nas urnas, a negação da escolha popular, a normalização do autoritarismo, o flerte perigoso com a intolerância, o desprezo pelo sofrimento coletivo. Tudo isso foi se encadeando como peças previsíveis de um mesmo mecanismo.
A política deixou de ser projeto.
Passou a ser domínio.
E quando o domínio se instala, a dignidade se torna concessão.
Não foi um processo súbito.
Foi gradual.
Quase pedagógico.
Primeiro, a dúvida sobre o voto.
Depois, o descrédito da democracia.
Em seguida, a exaltação da força.
Por fim, a banalização da violência simbólica e real.
Enquanto isso, o povo seguia trabalhando.
Acordando cedo.
Pagando impostos.
Tentando sobreviver.
O esmagamento já não precisava de metáforas.
Kafka gritava porque via o que se aproximava.
Hoje, grita-se porque se vive dentro disso.
O homem barata tornou-se o cidadão descartável.
A família que rejeita virou a sociedade que ignora.
O quarto fechado tornou-se o confinamento econômico, social e emocional.
Tudo funciona.
Mas nada respira.
O sistema gira.
Mas não acolhe.
E assim, entre leis que não protegem, discursos que não representam e poderes que não escutam, o indivíduo vai se transformando lentamente — não em inseto, mas em número, estatística, peça substituível.
Kafka escreveu como quem alerta.
O presente responde como quem confirma.
Talvez por isso sua obra continue tão atual: não porque previu o futuro,
mas porque compreendeu cedo demais o mecanismo da desumanização.
E enquanto esse mecanismo existir, Kafka continuará gritando.
Mesmo em silêncio.
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Mira Pimentel é cronista.














































































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