O novo Navio Negreiro
- Jornal Daki
- há 6 horas
- 2 min de leitura
Por Mira Pimentel

Castro Alves ainda grita.
E quem pensa que ele silenciou, não escuta o tempo.
Seu brado atravessa séculos, ecoando agora nas ruas quentes do Rio, onde a liberdade continua sendo promessa e a justiça, um ensaio em construção.
Mudaram os navios, mas a travessia continua.
Antes, corpos acorrentados cruzavam oceanos. Hoje, multidões atravessam a vida presas a um sistema financeiro que escraviza sem correntes, mas com boletos, juros, prazos e cansaço.
O chicote virou contrato. O tronco virou score bancário. A senzala mudou de endereço, mas ainda existe.
Gilberto Freyre nos falou da Casa-Grande e da Senzala. Nós seguimos morando nelas, mesmo fingindo que não. A Casa-Grande agora tem ar-condicionado, senha, biometria, linguagem jurídica e cafezinho gourmet.
A senzala pega três conduções, almoça em quinze minutos e chama de sorte conseguir chegar em casa inteira.
E nesse cenário de exaustão coletiva, alguém decidiu fabricar uma bomba
para explodir a antiga casa do povo.
Não era só pólvora. Era confusão. Era desorientação. Era uma mente tentando gritar num idioma que só conhece o barulho.
Atacar a Alerj não é um gesto político. É um sintoma social.
Quando a vida aperta demais, alguns se fecham em silêncio. Outros explodem em espetáculo.
Mas a verdadeira violência não acontece num único dia. Ela se repete quando o sonho é adiado, quando o prato vem raso, quando o tempo vira escasso e a dignidade parece luxo.
O novo navio negreiro é invisível. Nele, seguimos viajando de segunda a sexta, das seis às dezoito, com a esperança parcelada em suaves prestações emocionais.
Talvez por isso Castro Alves ainda grite.
Talvez por isso a poesia ainda seja necessária. Ela é o lembrete de que não nascemos para sobreviver — nascemos para viver.
E se hoje tentam nos assustar com bombas, que a gente responda com afeto.
Se espalham medo, que a gente distribua presença. Talvez seja hora de corrigir a rota, ajustar os passos, calçar a bota — mesmo que cada um use um número diferente.
Porque os diferentes somos todos.
E caminhar juntos não exige igualdade, exige respeito. Que troquemos explosões por abraços, ódio por escuta, pólvora por poesia.
O mundo não precisa de bombas.
Precisa de bombas de amor — dessas que, quando explodem, espalham humanidade.
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Mira Pimentel é cronista.


















































