O novo Navio Negreiro
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O novo Navio Negreiro

Por Mira Pimentel


Arte original por Raquel Batista/Via RioOnWatch
Arte original por Raquel Batista/Via RioOnWatch

Castro Alves ainda grita.


E quem pensa que ele silenciou, não escuta o tempo.


Seu brado atravessa séculos, ecoando agora nas ruas quentes do Rio, onde a liberdade continua sendo promessa e a justiça, um ensaio em construção.


Mudaram os navios, mas a travessia continua.


Antes, corpos acorrentados cruzavam oceanos. Hoje, multidões atravessam a vida presas a um sistema financeiro que escraviza sem correntes, mas com boletos, juros, prazos e cansaço.


O chicote virou contrato. O tronco virou score bancário. A senzala mudou de endereço, mas ainda existe.


Gilberto Freyre nos falou da Casa-Grande e da Senzala. Nós seguimos morando nelas, mesmo fingindo que não. A Casa-Grande agora tem ar-condicionado, senha, biometria, linguagem jurídica e cafezinho gourmet.


A senzala pega três conduções, almoça em quinze minutos e chama de sorte conseguir chegar em casa inteira.


E nesse cenário de exaustão coletiva, alguém decidiu fabricar uma bomba

para explodir a antiga casa do povo.


Não era só pólvora. Era confusão. Era desorientação. Era uma mente tentando gritar num idioma que só conhece o barulho.


Atacar a Alerj não é um gesto político. É um sintoma social.


Quando a vida aperta demais, alguns se fecham em silêncio. Outros explodem em espetáculo.


Mas a verdadeira violência não acontece num único dia. Ela se repete quando o sonho é adiado, quando o prato vem raso, quando o tempo vira escasso e a dignidade parece luxo.


O novo navio negreiro é invisível. Nele, seguimos viajando de segunda a sexta, das seis às dezoito, com a esperança parcelada em suaves prestações emocionais.


Talvez por isso Castro Alves ainda grite.


Talvez por isso a poesia ainda seja necessária. Ela é o lembrete de que não nascemos para sobreviver — nascemos para viver.


E se hoje tentam nos assustar com bombas, que a gente responda com afeto.


Se espalham medo, que a gente distribua presença. Talvez seja hora de corrigir a rota, ajustar os passos, calçar a bota — mesmo que cada um use um número diferente.


Porque os diferentes somos todos.


E caminhar juntos não exige igualdade, exige respeito. Que troquemos explosões por abraços, ódio por escuta, pólvora por poesia.


O mundo não precisa de bombas.


Precisa de bombas de amor — dessas que, quando explodem, espalham humanidade.


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Mira Pimentel é cronista.

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