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A trolagem noturna do Rio Madeira, por Erick Bernardes


Foto: Pixabay
Foto: Pixabay

Fernando chegava do serviço sempre ao cair da noite. Trabalhador simples de loja de ferragens, atravessava a Pedreira da Carioca durante o breu noturno com o qual já se acostumara. No entanto, naquela sexta-feira treze aconteceu diferente. Sinistro. Apavorante.


Assim que o relógio apontou o horário da liberdade efêmera, Fernando montou na bicicleta de carga e partiu do Rocha ao bairro Lindo Parque, feliz e assoviando, por causa do seu descanso merecido rumo ao Engenho Pequeno. Necessário atravessar a Pedreira que margeava o Rio Madeira, cujo caminho sem iluminação até o momento nunca lhe causara desconforto. Mas, naquela noite, o inesperado decidiu testar a coragem do pobre trabalhador do comércio de ferragens. Sim, verdade, provação, pois tão logo Fernando passou pela primeira cancela que embocava na estrada de pedra com o Rio Madeira correndo ao lado, lembrou-se de ser aquela noite de sexta-feira treze a primeira coincidindo com eclipse lunar. Fenômeno raríssimo, desde a pré-história. Pouco antes de encerrar o expediente, o gato preto o encarou na saída da loja, nada de mais quanto a isso. Normal, bastante comum ver esses bichanos na porta do estabelecimento ao entardecer. A coruja piou sete vezes em algum pé de aroeira durante o caminho de casa. Sim, caro leitor, o nosso personagem já meio duvidoso contou sete pios sombrios do animal representante da sabedoria (não seria símbolo da morte?) e sussurrou consigo.


— Nada disso me assusta.



Enquanto a coruja o observava no escuro, o Rio Madeira que corria ao lado imprimiu no ar um som diferente. Isso mesmo, a pequena correnteza camuflada na escuridão ofereceu aos seus ouvidos ruídos como se fossem de passos humanos. Sim, exatamente, sons semelhantes ao de bater de pés dentro d'água e acompanhando o coitado. Era sexta-feira, dia treze, ninguém deveria duvidar das coisas improváveis.


— Que troço chato, isso não para de me acompanhar.



Seriam passos de assaltante ou alma penada? Poderia constituir algum delinquente ou ser do além seguindo Fernando pelas águas do rio? Confesso que talvez o fato dele reclamar sozinho potencializasse os maus agouros. Não podia dar coisa boa, lógico que não, falava consigo mesmo. Nervoso, inquieto, uma apreensão estranha.



Contudo, tão logo a primeira lâmpada apareceu ao longe e clareou o espelho d'água, deu-se o vislumbre da trolagem — e o acaso se revelou. Exato, inacreditável, o facho de luz mostrou, o espaço iluminado não deixou dúvidas. Em um instante o mistério findou. Não eram passos os ruídos sinistros produzidos ali, claro que não, engano. O medo cegou a razão do trabalhador, mas a luz do poste descortinou de vez o mistério: o choc-choc amedrontador do contato se revelou apenas por causa de uma velha e enferrujada lata de óleo de soja carregada pela pequena correnteza, rolando sobre as águas, movendo-se sinuosa pelo Rio Madeira e fazendo barulho.


Erick Bernardes é escritor e professor mestre em Estudos Literários.



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