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Amor de capela no bairro de Neves - por Erick Bernardes


Foto: Alex Wölbert
Foto: Alex Wölbert

Confesso que passo em frente da charmosa capelinha e sempre me pergunto: que história ela tem para contar? Claro, tudo nessa vida tem seu motivo. Sonhava em ser o primeiro a oferecer informações acerca da construção religiosa, impossível não ter me imaginado batendo no peito e dizendo: "fui eu quem descobriu a sua história".


Localizada na Rua Nova de Azevedo, 421, bairro de Neves, São Gonçalo, a capelinha é dedicada a São Pedro e tem um enredo lindíssimo que mais parece um daqueles romances vendidos na saudosa banca no centro da cidade, pertinho da prefeitura. Exatamente, já vai lá um bom tempo. Qual senhora nascida em SG nunca se deleitou com um daqueles romances populares adquiridos por preço módico no beco do Colégio Platô? Pois é, seria um best seller e tanto, hein! Mas juro, dessa vez quem descobriu a magnífica história da capelinha e seu enredo de amor foi meu amigo Alex Wölbert, cronista de primeira, um craque nesse tipo de investigação.



— Bem, querido Erick, eu conversei com uma das descendentes. Pena ela ter falecido recentemente. A capela tem mais de 100 anos de fundação. É fruto de amor e fé, entre marido e mulher.


Durante a conversa, Alex se referiu ao casal protagonista. Contou do tempo, quando o jovem pescador Francisco Rodrigues se enamorou por Mathildes Ferreira e viveram felizes para sempre. Não, caro leitor, a história não termina antes de começar. É que o jovem apaixonado se tornou esposo e se lançou ao mar no intuito de ganhar o pão. Isso mesmo, o trabalhador do mar se juntou aos outros pescadores com fins de fazerem daquela pescaria a mais produtiva de suas vidas.


Mas a existência tem lá os seus suplícios, necessário admitir. Durante a pesca as nuvens se adensaram, as ondas cresceram espantosamente, como se quisessem se vingar daqueles homens que tiravam seu sustento das águas profundas do oceano — e a tempestade os alcançou. Eram 29 pescadores, todos desapareceram ou morreram, conforme noticiaram os jornais da época.



A jovem esposa Mathildes não perdeu a fé de ver o seu esposo vivo e saudável de novo. Rezou o tempo todo, verdade, rogou além do que estava acostumada. "Oh, São Pedro, traga de volta meu esposo querido". O marido Francisco estava entre os desaparecidos. Não encontraram o corpo. Mas a mulher não perdia a fé, ajoelhava a cada hora e clamava pelo aparecimento do amado.


— Daí Mathildes fez a tal promessa: se São Pedro trouxesse Francisco são e salvo, ela mandaria construir uma capelinha para o santo de devoção, no próprio terreno, no lugar mesmo onde residia. Mathildes rezou com afinco, durante três dias e três noites, enquanto a tempestade ainda fustigava a região.


Pois bem, para pôr um fim nessa história, importa explicar que durante todo tormento marítimo, entre ondas gigantescas e relâmpagos apavorantes, Francisco sobreviveu agarrado a um tronco que sobrou do barco de pesca destruído. Sim, isso mesmo, milagres acontecem. O pescador foi o único a sair com vida do mar. E o casal viveu seu amor sob as graças de Deus.


*Nota do autor: Agradeço a Alex Wölbert pelas informações. Ele não só conversou com os descendentes do Francisco e da Mathildes como também tirou lindas fotos da capela. Recomendo a leitura mais detalhada dessa história no link: https://simsaogoncalo.com.br/sao-goncalo/uma-historia-goncalense-de-amor-e-fe/

 

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Erick Bernardes é escritor e professor mestre em Estudos Literários.





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