top of page

Coisas da Pandemia: Boa semana, por Paulinho Freitas

SÃO GONÇALO DE AFETOS

Foto: Paulinho Freitas
Foto: Paulinho Freitas

Num domingo de inverno em São Gonçalo um sol lindo vem nascendo, o friozinho da manhã embala os casais apaixonados em baixo das cobertas fazendo sair de cada lar a energia e o perfume do amor.


Embaixo do Viaduto de Alcântara uma jovem mãe vela o sono de duas crianças que se enroscam em trapos protegendo-se do frio. Ela por sua vez não dormiu a noite inteira. Cochilou apenas e matutou como faria para alimentá-las ao amanhecer.


A rua está deserta e a única coisa que vê é o perigo se aproximar por todos os lados, o medo de ter seus filhos roubados por algum mal feitor, a doença vil que já lhe tirou o companheiro, a esperança de melhorar e a fome, uma companheira inseparável que teima em lhe roer o estômago. Ali na sua frente começam a chegar os vendedores de caranguejos e toda a sorte de bugigangas. Começam a passar centenas de pessoas num vai e vem sem fim. Os cheiros diversos vindos da feira aguçam a vontade de rever diversos pratos.


Encolhida num canto com as crianças aqueles olhos tristes são testemunhas de uma vida que mais uma vez começa, mais uma vez passará por eles e mais uma vez não perceberá sua presença. A mais velha desperta e na curiosidade natural de criança já começa a querer bulir nos caranguejos.


Na inocência de criança acha que só em olhar para a mãe e a comida aparecerá como por encanto. Mãe sempre dá um jeito. Corre e sorri como uma criança feliz. A criança nasce feliz, vai crescendo feliz e vai ficando triste quando percebe que brincar de viver é coisa pra gente grande e burra que perde a noção de como é bom sorrir e fazer sorrir.


Uma alma caridosa vem com um copo de café com leite e um pedaço de pão com manteiga e entrega para aquela mulher.


A criança vê e vem correndo ao seu encontro com os olhos brilhantes e sorriso fácil. A mãe lhe entrega o alimento. Ele senta a seu lado e rapidamente consome tudo. Em poucos minutos já brinca novamente e não percebe que o irmãozinho já acordou e suga o peito magro de sua mãe que o alimenta mais de amor do que de leite.


Ela, apesar de faminta aguarda pacientemente outro super ser humano que com a visão de raios-X a enxergará e ajudará aquela família com uma próxima refeição. Mais um domingo se vai... O viaduto, aquele imenso monumento de concreto e aço é a única testemunha do amanhecer de mais uma segunda feira que chega trazendo mais uma família para se proteger do frio embaixo de seus poderosos pilares.


Nas paredes, velhos cartazes com dizeres bem sugestivos:


“VOTE EM DADAÚ DA SAÚDE! TRABALHO, HONESTIDADE E JUSTIÇA! COM O POVO! PELO POVO E PARA O POVO!!!!!!”


E o povo resiste... Até quando?

Paulinho Freitas é compositor, sambista e escritor.