Cotidiano
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SÃO GONÇALO DE AFETOS


Por Paulinho Freitas


Reprodução0Arte Jornal Daki
Reprodução0Arte Jornal Daki


A maior parte do meu tempo livre, eu passo no sofá, de frente para a televisão, que na maior parte do tempo está ligada em algum jogo de futebol de alguma parte do mundo e mexendo no celular, seja escrevendo, seja falando nos vários grupos das redes sociais, seja vendo as notícias, vídeos, etc..., não gosto muito de sair de casa, saio quando sou obrigado, para ir ao médico, fazer exames ou pro samba, que ninguém aguenta ficar muito tempo longe.


Dia desses, tive que sair para fazer alguma coisa que não me lembro, mas me lembro que já no portão vi um cara andando do começo ao final da rua, jurando que tinha deixado o carro dele ali. É uma sensação horrível, já senti isso e até hoje sinto arrepios só de pensar. Estava no seguro, menos mal.


Na esquina, um rapaz de moto fecha um carro, que perde o controle e atropela outro motociclista. Pronto! Em cinco minutos já eram quase vinte motociclistas falando ao mesmo tempo e querendo agredir o motorista, sem mesmo saberem o que tinha acontecido. A sorte do motorista é que o motociclista acidentado o inocentou, falando a verdade e o liberando de qualquer culpa. Nem todos dão a mesma sorte.


Ali perto da igreja matriz, na frente da Casa das Artes, um casal, com a mala do carro aberta, passa bem devagarinho, distribuindo café da manhã para os nossos irmãos moradores de rua. Uns acabam de comer e deitam de novo em suas camas de papelão e vão sonhar com dias melhores ou dias vividos antes de terem somente a rua para andar e o céu como cobertor. Outros, saem em busca de recicláveis ou da caridade para amealharem algum dinheiro para fumar um cigarrinho, beber um “suco da alienação” ou alguma coisa mais forte que os faça sair da realidade. Outros, ainda, seguem caminhando sem destino, só para ver se chegam ao final desse mundão de nosso Deus.


Mais na frente a moça que vende plantas, rega umas mudas enquanto sua filha arruma, numa caixa, um monte de limões e mangas. 


Na porta do banco, uma menina fala ao celular, ela tem um sorriso lindo e tem cara de apaixonada. Do nada surge um cara correndo e pega o celular, atravessa a rua e sobe para o morro da torre. Um coro de vozes, em gritos, ecoam pelo ar: _Pega ladrão! Surge uma patamo de também não sei de onde e sobe a rua. Só que eles não sabem que aquela rua não tem saída. Ela vai dar numa pedreira e aquela altura o meliante já tinha pulado o muro da igreja de N.Sra. do Perpétuo Socorro, atravessado o Morro da Cruz e desaparecido mata adentro, saindo lá no Coió. Este celular já era.


Antes da praça do Obelisco, Antiga praça da Mariza, outra confusão. Uma mulher discutia com o marido e quase chegaram as vias de fato por ciúme. O povo botava pilha e eles seguiam a discussão.


Fiz o que fui fazer e voltei pela Av. Presidente Kenedy. Vim observando o museu de brinquedos, que eu nem sabia que existia ali e do outro lado da rua uma enorme fila se formava para receber cesta básica num centro espírita. No meio das pessoas um guri olhava fixamente para um carrinho de madeira exposto no museu. Acho que ele nem estava ligando para a situação de penúria que o circulava, sonhava, simplesmente sonhava como toda criança faz, seja qual for a situação a criança sonha, o que a torna um ser fascinante.


Não foi um dia bom para sair de casa. Aperto o passo, entro na rua em que moro, abro o portão, entro, me recolho no meu cantinho no sofá, ligo a tv, ponho num jogo qualquer, pego o celular. Lar doce lar! Aqui me tens de regresso.


Graças a Deus!


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Paulinho Freitas é sambista, compositor e escritor

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