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Dr. March: muito mais que rua - por Erick Bernardes


Imagem: Reprodução
Imagem: Reprodução

Quem pega ônibus ou repara nos letreiros dos veículos coletivos decerto já se deparou com a referência: “Via Dr. March”. Contudo, não raro nos damos conta da importância desse senhor homônimo de rua na região do Barreto em Niterói. Por qual motivo se tratar da história de um personagem nascido no que é hoje a cidade de Teresópolis, se a nossa coluna tem como foco as cercanias de São Gonçalo? Bem, vamos à explicação.


Guilherme Tayllor March foi filho de pai inglês radicado em Portugal com uma brasileira de antepassados africanos. Nascido em 21 de agosto de 1821, de família abastada e proprietária da maior parte da fazenda da qual se originou a cidade de Teresópolis, ficou órfão cedo, formou-se médico e viu a fortuna familiar se esvair. Homem de luta pela vida, apelidaram-no de “o médico dos pobres” e fez fama pelo carinho e dedicação aos moradores de Niterói, São Gonçalo e entorno. Implementador da medicina homeopática no Brasil, pertencente à doutrina espírita, montou consultório em casa (tornada sua própria residência) doada pela população na cidade de Niterói e tratou de inúmeras pessoas sem cobrar pagamento. Isso rendeu-lhe graças e simpatias para além do território.


Dr. March foi eleito herói e faleceu com honras e glórias pela população do Leste Fluminense. Como resultado, alguns biógrafos se lançaram na empreitada de relatar e narrar os feitos desse médico incomum. O jornalista Alfredo d’Alcântara constitui um dos seus primeiros (talvez primeiro) biógrafos e nos oferece importante relato de quando conheceu tão nobre homem, mas antes reconhece:



“Fomos testemunha do seu apostolado de amor ao próximo, por isso exultamos com a oportunidade que nos oferecem de prestar o nosso depoimento, a esse respeito, perante três gerações que se foram à nossa retaguarda (...) Travamos conhecimento com o Dr. March há precisamente cinquenta e dois anos. Como isto se deu vamos relatar pormenorizadamente” (p. 18).


O casal d’Alcântara nem bem havia alcançado seus vinte e um anos de matrimônio quando teve a honra de conhecer “o médico dos pobres” por causa de uma enfermidade que acometera a filhinha dos dois com uma doença grave no intestino. A preocupação era enorme, caso grave e de tirar o sono, “o desânimo apoderou-se de nós, e diluiu as nossas energias, transformando-as em lágrimas que extravasavam de nossos olhos macerados por tantas vigílias” (p. 18). Até que um amigo da família recomendou: “procurem o médico March em Niterói”, e assim fizeram.


Lá foi à Niterói a família de Alfredo, em busca da cura para a pobre criança. Nenhuma esperança parecia animar o coração deles, a tia ajudava a carregar a sobrinha no colo. E desse modo o próprio jornalista narrou sua chegada à cidade de Arariboia:


“Ao aportar (...) dirigimo-nos a um empregado da Cantareira, que trabalhava no torniquete, e perguntamos se porventura conhecia o médico chamado Dr. March. Ele, com a mais impressionante simplicidade respondeu: 'Conheço, mas não sei o nome da rua em que mora; isto, porém não tem importância. Tome o bonde de Neves e pergunte ao condutor; todos eles sabem" (p. 20).


Ressalta-se não haver ainda tração elétrica naquele tempo, os veículos eram puxados por animais de carga. E a viagem assim se deu. Tão logo chegaram, viu-se a quantidade de pessoas que também buscavam auxílio médico.



"Ali, verdadeira multidão de doentes aguardava a vez de ser atendida. Ao fundo, dando as costas para a porta de um quarto de dormir (...) estava sentado um ancião, cujas barbas longas e quase inteiramente brancas se espalhavam sobre o peito, por sua vez coberta por um avental de brim escuro, que descia até os joelhos, sem, todavia, ocultar um remendo nas calças, que eram do mesmo tecido inferior" (p. 21).


De modo resumido, sabe-se que a filha foi curada e tudo se resolveu bem. Que maravilha, ficou sã a menininha. E o médico humilde sorriu. Diriam as pessoas ser ele um quase santo a viver ali em Niterói. Como se viu, Doutor March era pobre, não tinha bens, sua casa fora comprada pela população niteroiense, mas não cobrava, nem um tostão sequer. Certa vez, uma família vinda do Rio do Ouro para se consultar com o médico deu-lhe como pagamento patos e galinhas. O doutor não queria, mas obrigaram-no a aceitar. No dia seguinte, um outro e desnutrido doente recebera alimentação reforçada no consultório com as mesmas aves dadas como contrapartida da consulta. Incrível tamanho altruísmo. Impossível não se sensibilizar. O médico dos pobres amava a humanidade.


É bom frisar que o nosso personagem benfeitor já entrou doente na casa que lhe foi doada pela população. No entanto, exerceu com afinco sua profissão sem reclamar as próprias dores. Ele se foi em vinte um de julho de 1922, no auge dos seus 84 anos, sendo 63 dedicados ao exercício da medicina. O sepultamento configurou um evento enorme, toda comunidade de SG e Niterói acorria ao cemitério. Não é à toa que virou nome de rua. Um homem que se doou.


Enfim, para quem não conhece o topônimo, a rua Dr. March se localiza no Barreto, se estende da Venda da Cruz, atravessa o bairro Tenente Jardim e segue cortando arredores. Tem como uma das referências o encruzo das ruas Sá Pinto e Dr. Luiz Palmier.


Obs. O livro nos foi emprestado pelo professor e bibliófilo Rui Aniceto Fernandes, trata-se de uma raridade sem a capa, por isso não há certeza da data, tampouco existe registro da editora, embora, pela atuação do Dr. March como médico espírita, talvez o volume tenha sido publicado em 1957, em atenção às comemorações do centenário do Espiritismo.


Fonte: Um apóstolo espírita: estudo biográfico do Dr. Guilherme Taylor March, Alfredo d’Alcântara.

 

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Erick Bernardes é escritor e professor mestre em Estudos Literários.