O Dia dos Namorados e o Eleitor Carioca
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O Dia dos Namorados e o Eleitor Carioca

Por Mira Pimentel

 

Arte: Jornal Daki com IA
Arte: Jornal Daki com IA

Chegou mais um Dia dos Namorados. As vitrines estão cheias de corações vermelhos, promoções de jantares românticos e promessas de amor eterno. As redes sociais se enchem de declarações apaixonadas, fotografias cuidadosamente escolhidas e frases que garantem que, desta vez, será para sempre.


Enquanto isso, do lado de fora das floriculturas, a gasolina continua subindo. O saco de cimento continua mais caro. O aluguel aperta. O supermercado engole uma parte cada vez maior do salário. E o cidadão comum segue tentando descobrir onde foi parar a prosperidade prometida em tantas campanhas eleitorais.


Talvez o eleitor brasileiro entenda de namoro mais do que imagina. Afinal, a política moderna parece ter adotado muitos dos costumes dos relacionamentos contemporâneos.


Já não se fala em compromisso, fala-se em interesse. Já não se fala em construção conjunta, fala-se em oportunidade. Já não se fala em confiança, fala-se em estratégia. É um eterno “vamos ver no que dá”.


Durante décadas, muitos candidatos apareceram nas comunidades carregando soluções mágicas. Um favor aqui. Uma promessa ali. Um saco de cimento. Uma vaga temporária. Um benefício emergencial.


E assim o voto, que deveria ser um instrumento de transformação coletiva, muitas vezes foi reduzido a uma moeda de troca para necessidades que os próprios governantes deveriam combater através de políticas públicas eficientes.


O eleitor recebia o presente. O político recebia quatro anos. No final da conta, o saco de cimento saía muito mais caro do que parecia.


Porque junto dele vinham impostos mais altos, serviços precários, obras inacabadas e uma população cada vez mais dependente de favores.


Mas talvez alguma coisa esteja mudando. Talvez o eleitor fluminense esteja começando a perceber que governantes não são salvadores. São administradores. Não deveriam ser donos do Estado. São funcionários temporários da população.


E talvez a grande revolução política não esteja em um candidato específico. Talvez esteja no cidadão que finalmente aprende a perguntar: “Quanto isso vai custar daqui a quatro anos?”


A esperança mora justamente aí. Não na promessa, mas na consciência. Não no discurso, mas na fiscalização. Não no marketing, mas na capacidade de distinguir entre quem fala para conquistar votos e quem apresenta caminhos concretos para resolver problemas.


E então chegamos novamente ao Dia dos Namorados. Confesso que ando observando uma curiosidade linguística.


Antigamente as pessoas namoravam. Hoje elas ficam, pegam, conhecem, experimentam, testam, avaliam. Mas o velho namoro, aquele que significava compromisso, respeito, admiração e construção de futuro, parece ter se tornado uma espécie de peça de museu.


Talvez por isso o Dia dos Namorados esteja ficando tão parecido com certas campanhas eleitorais. Muito encanto no começo. Muitas promessas. Muitos jantares à luz de velas. E pouca disposição para assumir responsabilidades quando chega a segunda-feira.


Lembro então de uma expressão curiosa usada por um conhecido personagem da política nacional, que costumava dizer que estava “namorando” alguém quando tentava construir alianças. Sempre achei a metáfora interessante.


Porque, olhando para algumas alianças políticas que surgem e desaparecem a cada eleição, talvez o problema nunca tenha sido a falta de namoro. Talvez tenha sido a falta de amor.


E, nesse Dia dos Namorados, resta uma pergunta ao eleitor carioca: Estamos escolhendo representantes para um compromisso sério com o futuro ou apenas entrando em mais um relacionamento tóxico que vai durar até a próxima eleição?


Porque, convenhamos… O amor pode até ser cego.


Mas o eleitor não precisa continuar sendo.


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Mira Pimentel é cronista.

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