Valcyr, o andarilho
- Jornal Daki
- há 26 minutos
- 2 min de leitura
SÃO GONÇALO DE AFETOS
Por Paulinho Freitas
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Alguns dizem que “o inferno é aqui. ” Outros, que, “aqui se faz, aqui se paga”. Pessoas mais amargas e vingativas sentenciam: “ninguém morre me devendo. ”
Sei não. Tem pessoas que trapaceiam a vida toda e morrem de velhice, sem nunca terem pago nem os mais inocentes dos erros, que dirá os graúdos. Outros só porque pegou uma laranja no pomar do vizinho, passa a eternidade queimando na churrasqueira do “cão”. Que juiz é este? Pergunto eu. Queria entender o porquê de tanta gente boa deixar a gente aqui chorando de saudades e outras tralhas, que não servem nem para estrume, andando por cima da terra, arrotando bondade quando só comem ódio, falsidade e traição. Quando eu já estou descrente de todo o sagrado e tentando me despir das crendices, me vem o Valcyr...
Valcyr é andarilho. Uma hora está nas barcas, outra hora está em Alcântara, outra hora está no centro de São Gonçalo. Valcyr é como o vento, sem direção ou paradeiro. Só vai para onde seu nariz aponta.
No passado Valcyr tinha uma família. Mulher, dois filhos, os pais gozando de saúde, apesar da idade avançada, um bom emprego e uma vida feliz.
Aos domingos Valcyr frequentava a igreja, ajudava a distribuir cestas básicas, visitava doentes e encarcerados. Um homem de fé, que em suas orações pedia a Deus pela paz no mundo, pelo fim das guerras e da morte de tantos inocentes, pelo fim da miséria, da fome e da desarmonia entre os homens. A vida de Valcyr corria feliz e ele, sendo exemplo de homem, era inspiração para todos os que o cercavam.
Numa noite de domingo, voltando da igreja, chovia muito. As ruas estavam escorregadias, muita chuva, muito vento, um ônibus avançando o semáforo foi o suficiente para Valcyr perder o controle do carro que capotou algumas vezes e só parou porque no meio do caminho havia uma árvore. Valcyr sofreu várias fraturas, vários meses para se recuperar. Da família, nem o pet sobreviveu. A vida de Valcyr não tinha porque existir.
O desespero tomou conta de seu coração e ele começou a vagar sem destino e deixou a loucura fazer o que ela sabe fazer de melhor: não deixar sofrer ou pisar o chão da realidade. A única coisa de que Valcyr não esqueceu foi sua fé. Aos domingos, na missa das seis da tarde na igreja matriz de São Gonçalo ele é o mais devoto dos fiéis, apesar da tragédia que mudou sua vida para sempre, continua orando, pedindo a Deus pelos menos favorecidos, pelo fim das guerras, pelo fim da fome, da miséria, pelo consolo aos enfermos e aos encarcerados.
Me pego pensando em minha vida e nas coisas que minam minha fé e lembro de Valcyr e sua louca generosidade. Quem será o louco, eu ou ele?
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Paulinho Freitas é compositor, sambista e escritor.












































