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O Jardim de Margareth - por Paulinho Freitas

SÃO GONÇALO DE AFETOS

Reprodução Internet
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O silencio na hora das refeições na casa de Margareth era sagrado. Ordens do velho Trajano, pai de Margareth, um militar aposentado, mas que fazia de sua casa a extensão do quartel. Margareth cresceu e foi educada para ser dona de casa e submissa ao marido, condenada a viver como a mãe, dona Odete que morreria sem nunca ter direito a nenhuma realização de sua vontade. Nunca foi ao cinema e nem teve direito a escolher o marido. A mesma sentença foi dada a Margareth.



Quando viu Armando foi amor à primeira vista. Ele parecia um artista de cinema de tão lindo. Casaram-se sob as bênçãos de frei Eustáquio e seguiram para lua de mel em Campos do Jordão. Um sonho lindo que, para Margareth, acabou no primeiro dia útil após voltarem de viagem. Armando parecia cópia fiel de seu pai, autoritário, machista e mal educado transformou a vida da sonhadora Margareth num verdadeiro martírio. Seu único prazer era cultivar o jardim que enfeitava a frente de sua casa. Eram seus únicos momentos de paz, de pensamentos próprios e de cultivar também seus próprios sonhos. As orquídeas elogiavam sua beleza e sensibilidade, as margaridas queriam ter seu perfume encantador de mulher e as rosas queriam despetalar os cravos e tecer um lindo tapete para que ela pudesse passar. Quando estava lá estava em paz, nas nuvens.



Com vinte e cinco anos de casada viu Armando arrumando as malas e saindo de casa para morar com uma amante. Chamou-a de velha, de bagulho, colocou-a abaixo de nada, bateu a porta e sumiu deixando Margareth na janela olhando para o nada em que tinha se transformado sua triste vida.


Armando rejuvenesceu e era constantemente visto em festas e bares com a nova companheira e sempre que encontrava com alguém conhecido não media palavras para ridicularizar a pobre Margareth. No seu íntimo ria da penúria que aquela pobre mulher deveria estar passando:



_Não sabe fazer nada! É uma imprestável! Deve estar como doméstica em alguma casa da vizinhança, afinal era só para isso que ela serve! - Pensava e gargalhava por dentro.


Mal sabia Armando que Margareth passou a vida fazendo cursos por correspondência, naquela época já existia supletivo e ela concluiu todas as fases. O tempo que passava no jardim passava as matérias junto às flores. Com pouco tempo de separação fez concurso público, foi trabalhar no Tribunal de Justiça e terminou o curso de direito numa universidade federal. Com dez anos de separada Margareth rejuvenesceu vinte anos. Era uma senhora respeitada por todos e fazia suspirar corações pelos corredores do fórum, enquanto Armando foi envelhecendo cada vez mais ranzinza e rabugento até ser abandonado pela companheira, que jamais aceitou ser tratada como ele tratava Margareth.



Margareth se transformou em exemplo de luta e superação. Enquanto muitas sucumbiram a seus algozes, supostos “donos” e mal feitores ela avançou sobre seu tempo e escreveu uma nova história, inventou um quilombo imaginário onde construiu sua liberdade. Seu jardim foi sua inspiração a vida toda e suas imaginárias conversas com as flores a fizeram manter a alto estima e focar num objetivo.


_Olha pro seu jardim Margareth!

Paulinho Freitas é compositor, sambista e escritor.