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O que fica ao olhar para o retrovisor

Por D. Freitas


Foto: Pixabay
Foto: Pixabay

Estou torcendo para que trânsito não pare de fluir para não precisar trocar a marcha e tirar minhas mãos que repousam na perna dela. Os carros seguem na estrada escura como sangue nas veias. Como múltiplos microrganismos que formam um maior. Pessoas que nunca se viram, trabalham em sintonia. Uníssonos. Graças às regras. Regras que como dizem em um filme que gosto muito: são as únicas coisas que nos diferem dos animais. No entanto, não creio que nos façam superiores, não creio fielmente também na afirmação de que os animais não seguem as regras.


O ponto é que nós seguimos por escolha e eles por instinto. Temos esse livre arbítrio de convivermos em sociedade ou nos isolarmos. Dividirmos a vida com um parceiro ou vários. Caçar e plantar ou vender nosso tempo para consumirmos algo que outro ser produziu, caçou ou plantou. Por escolha, não solto a perna dela mesmo quando o trânsito quebra seu fluxo inesperadamente.


Nesses momentos o tempo costuma desacelerar e não sei se é assim para todos os animais. Não sei se é assim nem para todos nós, humanos. Comigo, o tempo passa mais devagar, mas não tenho capacidade de reação pois me movo mais vagarosamente que o tempo. Parece uma piada que me faz sentir arrependimento das minhas escolhas há poucos segundos. Um momento de reflexão sobre o que eu deveria ter feito ou deixado de fazer. Um lembrete que eu deveria ser mais atento, principalmente enquanto dirijo em uma estrada nacional com alguém importante do meu lado.



Não vejo toda minha vida passar diante dos meus olhos então sei que ainda não é a morte. A frente um dos carros percebe minha velocidade e abre espaço para que eu não bata na sua traseira. Tenho um pouco mais de tempo para trocar de faixa para a contramão e não ocasionar um acidente com o carro seguinte. Gentileza, atenção, empatia... Tudo o que me faltou, sobrou no motorista que estava na minha frente. Essa particularidade, essa diferença entre seres da mesma espécie... Também nos diferencia dos animais. Somos diferentes até de nossas próprias versões durante o dia. Somos uma metamorfose. Temos essa capacidade de adaptação e transformação. Desapego com o que nossa genética tenta nos obrigar a ser. Somos a revolta contra o simples. Contra o óbvio. Somos argilas moldadas pelo tempo.


Tempo... Tive o suficiente para conseguir nos salvar daquele acidente. Permaneci ofegante e senti minhas pupilas dilatadas o bastante para que um farol que vinha contra mim distante parecesse estar perto. Antes que eu possa ter espaço para voltar para a pista correta, passo pela causa daqueles pequenos segundos de caos. A causa da quebra de fluxo: Um animal que não consegui identificar atravessou a pista. Essa cena que queria esquecer foi vista enquanto encarava a mulher ao meu lado tentando tranquilizá-la do possível acidente recente.


Incrivelmente ela se encontra serena, como se nem percebesse o que aconteceu. Talvez esteja na programação dela confiar tanto em mim que nem se preocupa com o que se passa ao redor. Provavelmente ela sentiu que tinha algo errado provavelmente pela pressão que apliquei nas suas pernas com meus dedos, inconscientemente. Ela sorri ao ver que eu a olho e me manda olhar pra frente, sem alterar nem um pouco o tom de voz. Rio em resposta.


Agradeço mentalmente por ela não ver o animal atropelado, pois ela sofreria mais com isso do que com os carros engavetados. Pois sua empatia é seletiva e normalmente pende aos animais.


Ela aumenta levemente o som do rádio enquanto retorno para a pista convencional e um caminhão passa por nós no sentido contrário alguns segundos depois. Pelo retrovisor vejo a cena iluminada pelos fortes faróis daquele imenso veículo que passou recentemente. Tudo ficando para trás. Tudo se tornando apenas "coisas". Objetos no espelho.


Uma música canta exatamente essa frase em inglês enquanto retomo o fluxo com os carros.


A vida segue. Para o tempo, problemas e acidentes são apenas vírgulas.


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Davi Freitas nasceu em São Gonçalo, cria da cultura gonçalense, desde sempre conviveu com músicos, poetas e escritores. autodidata, aprendeu violão e bateria sozinho e junto com o irmão Lucas Freitas fez algumas apresentações até ter, por motivos profissionais, que mudar de estado. Como escritor, participou, pela Editora Apologia Brasil da Antologia em Tempos Pandêmicos e inicia agora sua trajetória no mundo das crônicas e contos. 

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