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Os tapetes de Corpus Christi - por Erick Bernardes


Foto: Matheus Graciano/SIM São Gonçalo
Foto: Matheus Graciano/SIM São Gonçalo

A primeira vez que me deu vontade de pesquisar sobre os tapetes de sal de Corpus Christi no município de São Gonçalo ocorreu ao menos há 9 anos. Isso por causa de uma situação peculiar: estava eu saindo do Hospital de Clínicas de SG, devido à internação da minha filha naquele recinto. Sim, ela se encontrava doente, preocupação minimizada pelo diagnóstico médico. "Nada grave, somente uma intoxicação alimentar", transmitiu a informação o doutor. Graças a Deus!



Eu carecia andar uns metros ao menos. Um pouco de caminhada faria bem, necessário sair do ambiente insalubre de enfermaria. Por coincidência ou acaso, não sei, o dia era exatamente o de Corpus Christi, no mesmo horário da passagem do ostensório e dos fiéis católicos por cima do famoso tapete constituído por sal, serragem, pó de café e outros materiais.


O certo é que quando criança, não raras vezes, vi amigos e parentes virando a madrugada em prol da confecção das artes dessa atividade religiosa centenária. Nunca me detive na explicação da chegada da manifestação do tapete em SG. Porém, naquele dia, o senso de curiosidade me fustigou o pensamento. Necessário admitir, na ocasião apontava em meu espírito vontade mesma de saber.



Ao andar em frente da prefeitura e observar a cena, me perguntei onde haveria começado esse tipo de tradição gonçalense. Adivinha o que eu fiz? Isso mesmo, claro que corri para internet no intuito de compreender a manifestação. Retornando à enfermaria onde minha filha aguardava alta, pesquisei no telefone celular e passei ali ao menos uma hora lendo e absorvendo detalhes de onde e como a confecção artístico-religiosa começou. Mais interessante ainda foi tomar ciência de que não se sabe até hoje exatamente como a história dos tapetes imigrou de Portugal, a não ser certas possibilidades e especulações.



Registros apontam o surgimento do tapete de Corpus Christi no século XIII, por causa da revelação que a freira belga Juliana de Mont Cornillon (1193-1258), tornada santa depois, teria recebido durante a madrugada em sonho especial. A freira obtivera os sinais da reprovação divina, reclamações vindas do céu e dirigidas à Igreja, porque constavam pouquíssimos fiéis dedicando o dia em intenção ao Corpo de Cristo.



Desse modo, tão logo a freira haveria comunicado o fenômeno sobrenatural ao clero da diocese local, este ordenou de pronto uma festa em comemoração, como sinal de reverência e dedicação à data católica. Por conseguinte, lançaram flores e ramagens perfumadas nas ruas, pouco antes dos fiéis caminharem por sobre o chão preparado para a ocasião. A partir daí, a tradição teria se espalhado pela Europa.


Segundo o site Sim São Gonçalo: "A procissão lembra a caminhada do povo de Deus, peregrino, em busca da Terra Prometida. No Antigo Testamento esse povo foi alimentado com o pão maná, no deserto. Hoje, ele é alimentado com o próprio Corpo de Cristo em forma de pão" (MARTINS, 2014). Entretanto, fontes outras afirmam se tratar de uma representação da passagem bíblica, de quando Jesus entrou na cidade de Jerusalém e o povo se alegrou com isso. As pessoas lançavam nas ruas ramos de oliveira, no intuito de que o Rei dos Reis transitasse por sobre as ramagens.



Por último, discussões à parte, o que se tem de certo remonta aos imigrantes portugueses dos Açores, e cuja prática da confecção dos tapetes no dia do Corpo de Cristo haveriam trazido para o Sudeste do Brasil. Em São Gonçalo a tradição se perpetua bem, virou patrimônio imaterial do município desde 2010, e constitui o maior tapete do gênero da América Latina, alcançando a extensão de mais de dois quilômetros.


Referências:

https://simsaogoncalo.com.br/cultura/corpus-christi-em-sao-goncalo-uma-recente-tradicao/

https://www.ultimasnoticias.inf.br/noticia/a-origem-dos-tapetes-de-corpus-christi/


Erick Bernardes é escritor e professor mestre em Estudos Literários.