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Zé Garoto aos olhos do palhaço, por Erick Bernardes


Falava de rosto abaixado, olhos desconfiados, boca mordiscando ponta de palito de fósforo virado ao contrário, a voz sabida, provavelmente treinada nos assuntos de circo aos quais se dedicou a vida toda. “Eu conto a todo mundo como ele veio parar aqui, mas as pessoas riem”, desabafou o narrador que jurava ter conhecido os descendentes do famoso português Zé Garoto.

Ao explicar-me a história de formação desse bairro, George Savalla Gomes, mais conhecido como Palhaço Carequinha (que de careca não tinha nada) retirou o palito dos dentes e pôs-se a catucar a unha com a mesma farpa do fósforo queimado e apontou com o queixo:

—Era bem aqui oh! Zé Garoto vendia de tudo, um dos primeiros armazéns da região, foi um tetraneto dele quem me contou.

E George indicou o local onde hoje se encontra a atual câmara dos vereadores, também referido por antigo fórum de São Gonçalo.

Morador do bairro Zé Garoto durante mais de meio século, o palhaço tornara-se frequentador da praça onde hoje ostenta a sua imagem, no espaço reservado ao pequenino palco montado em sua homenagem. Tem até placa da prefeitura em honra ao Carequinha! Pois é, oficialmente a pracinha chama-se Estephania de Carvalho, que foi também uma ícone municipal de respeito, mas (curiosamente) é a imagem do querido George Savalla que sobressai. Recordo muito bem, sempre às sextas-feiras, e ia eu papear com o artista circense esguio e bem vestido. Lá mesmo, pertinho da praça, conversávamos pra caramba. Impossível não reparar quão famoso em São Gonçalo e no Brasil inteiro o palhaço era. Mesmo sem a fantasia, toda hora chegava gente, apertavam-lhe as mãos e cantavam sorrindo a fanfarra “ai aiai, carrapato não tem pai”, quando não lançavam no ar os versos engraçados: “um bom menino não faz xixi na cama”.


Sabe-se que o ator de picadeiro George viera de Rio Bonito, mas adquiriu excelentes conhecimentos sobre o nosso município, tão logo instalou-se por aqui. Morando quase em frente à Câmara do Municipal, antigo Fórum, o talentoso senhor narrava a história daquele menino que deu nome ao bairro onde ele próprio escolheu para viver. Sim, referia-se ao comerciante lusitano Zé Garoto. Toda criança portuguesa batizada de José da Silva recebia a alcunha de Zé Garoto. Verdade, estranho isso. Pois quando chegavam à idade adulta os apelidos não mudavam, e os “Zés”, embora muitas vezes já pra lá de idosos, continuavam ainda garotos no nome. Eu hein! Mania esquisita de antigamente, coisa mais sem noção. E, assim, o lugar ficara conhecido como o espaço mais central do município. Zé Garoto, impossível ao gonçalense não conhecer o bairro e, como diria Carequinha: “Ta certo ou não tá?”.


Erick Bernardes é escritor e mestre em Estudos Literários.

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