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Entre batuques de Mutondo: uma história de ancestralidade, por Erick Bernardes


Tambor denominado mutondo, rongo, kundo, marimba, etc/Foto foi extraída do artigo usado como referência

Estava seguindo para o trabalho quando me surgiu o questionamento: por que existe atividade noturna tão intensa e afastada do centro de São Gonçalo? Bem, falo da minha reflexão sobre o Mutondo, o meio percurso entre o Rodo municipal e o bairro de Alcântara; espaço tomado por bares, danceterias e eventos durante a madrugada.

Dizem que antigamente os escravizados faziam suas festas e comemorações um pouco afastados das casas dos senhores donos das fazendas mais imponentes. Exato, diversão pelas frestas da sociedade, escondiam-se, metiam-se nas capoeiras. Não haveria como não se esconderem dos opressores. Tudo isso visando evitar as surras e maldades que certos capitães-do-mato aplicavam aos antepassados mais festeiros. Absurdo, crueldade, homens e mulheres obrigando a si mesmos a disfarçarem suas alegrias transformadas em recreação.


No meio da mata, após o Rodo e antes da famosa Alcântara, pertinho de onde hoje há infinidade de prédios, eis que antigamente se ouviam embalos de atabaques, berimbaus, afoxés e, para minha surpresa, tambores africanos denominados de mutondo acompanhando os cânticos tradicionais do tipo vissungo. Isso mesmo, lá no passado existiu. Matou a charada? O bairro Mutondo traz nas entrelinhas da própria história a marca da ancestralidade gonçalense. Estaria o bairro Mutondo envolvido por alguma força invisível dos guerreiros de África após centenas de anos decorridos? Não sei, confesso não ter ciência da coisa, pois nesses assuntos de mandingas e influências eu tenho cá minhas dúvidas também. Só sei que a energia continua. Passe de carro à noite de sexta-feira no Mutondo pra ver. Gente e mais gente sacodindo o corpo. Garrafas do tipo long-neck na mão. Cerveja, ânimos em estado etílico, banhos de suor e badalação.


Bem, para finalizar, o tambor mutondo passa hoje ao longe da memória de São Gonçalo. Aposto que nem você ouviu falar. Instrumento antepassado, quem vai querer saber? Mas está aí, ao pesquisador de fé: que rufem os tambores e falem à toda gente sobre o bairro Mutondo e a nossa ancestralidade.


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Fonte: QUEIROZ, Sonia (Org.). Brasilidades que vêm da África. Belo Horizonte: FALE/UFMG, 2008.

Erick Bernardes é escritor, professor e mestre em Estudos Literários.



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