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O bairro Arsenal e o índio misterioso, por Erick Bernardes


Foto: Alex Wölbert

Trabalhei durante anos em importante multinacional produtora de medicamentos no bairro do Arsenal. Sim, verdade, o cronista que nunca acordou de madrugada pra ganhar o pão perderá seu tanto de força na arte de narrar. Anos de labuta levantando cedo, indústria gigante, vivência na fabricação. E só não cito o nome do diabo verde que é pra não invocar a tal da propaganda gratuita, conforme afirma o vulgo.


Pois bem, o caso é o seguinte: sempre gostei de saber das coisas, das pessoas, das histórias. Cada amizade construída acolá oferece um ou outro parágrafo no livro chamado cotidiano. Lá no Arsenal não foi diferente, aprendi a valorizar o mais simples detalhe de uma boa conversa. Experiências. Amizades. Ouvi histórias sobre Rio do Ouro, Maricá, Jockey, Tribobó, Itaboraí, e por aí vai, porém, do santo de casa chamado bairro Arsenal, "neca de pitibiriba" me chegou aos ouvidos. Acervo histórico mesmo encontrei nenhum, nadinha. No máximo a referência a um tal figurão Mamed Souza que loteou a antiga fazenda a constituir então o bairro.

Mas não, a história que ofereço é outra, pois, certo dia, já longe da tal indústria farmacêutica, eis que me chega aos ouvidos a história da estátua de um índio. Nem era figura famosa. Negativo, caro leitor, não me refiro ao casmurro Arariboia da cidade irmã, claro que não. É indígena gonçalense, imagem pronta a defender certa rua do bairro Arsenal. Difícil de acreditar. Necessário esclarecer: soube por um amigo jornalista, que há meio século uma senhora de nome Guaíra Xavier veio lá de Duque de Caxias e se estabeleceu em São Gonçalo. Dizem que fundou centro de Umbanda e resolveu homenagear a entidade nativa com a qual se identificava. Exato, grande monumento em forma de índio, estátua, artefato da casa umbandista, guerreiro armado de arco e flecha a olhar imponente do sopé de certo morro já dominado. Típico guerreiro da mata, forte e vigoroso. Confesso certo orgulho de ver; nada de braços cruzados como o irmão a vigiar a Guanabara. O de cá é ativo, atacante, sobremaneira combativo. Lindo mesmo.

Pois bem, se alguém quer fazer ligação de sentido do Arsenal com algum assunto de batalha ou combate, conforme a palavra "arsenal" sugere, desejo a ele boa sorte, pois eu mesmo não consegui fundamento histórico. No entanto, querendo ou não, ofereço aqui uma reflexão, nada mais natural que falar de arco e flecha como instrumento pioneiro de guerra. Sim, por que não? Nossos índios se defenderam assim dos abusos coloniais, e as armas apontadas lá no morro assinalam (ainda agora) o efeito colateral, a negligência, o descaso, a péssima administração do que se convencionou chamar Estado.

Erick Bernardes é escritor e professor mestre em Estudos Literários.


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