top of page

Sacramento, por Erick Bernardes


Foto: Pixabay
Foto: Pixabay

A locomotiva alaranjada da estrada de ferro cortava os campos de São Gonçalo e se diluía no horizonte fluminense até sumir de vista. Isso mesmo, não faz tanto tempo assim, até porque a história permanece na mente dos antigos moradores do bairro chamado Sacramento.


Para o fazendeiro José do Sacramento, que assistia à paisagem da locomotiva, os vagões da composição eram como arado de madeira e ferro sulcando sua propriedade, onde pés de café, cana-de-açúcar e milho constituíam trilhas verdosas sobre o solo fértil de outono. O dia era 9 de maio de 1952, e a terra, assim como aquela segunda metade de século, estava cheias de possibilidades.


Viu como é? Quase um filme a ser configurado na imaginação de quem ouve duas ou três narrativas desse tipo. Imaginem a cena, pouco mais que cinco décadas passadas. Um dos visitantes da região, o senhor Jessé Cristo, seria pouco depois responsável por comprar parte da fazenda do José do Sacramento e lotear frações menores aos novos agricultores que nas redondezas se estabeleciam. Curiosamente os nomes bíblicos são aqueles que tematizam esta história. De fato, José e Jessé, de sobrenomes Sacramento e Cristo, respectivamente. Que coisa, hein!


— Vou vender a propriedade, Maria, pegamos o dinheiro e sossegamos para os lados de Vassouras. Até porque meus irmãos estão todos lá.


— Concordo, meu velho, isso aqui já dá mostras de lugar estragado. Muita gente de longe chegando. Pessoal estranho. A agricultura já tá prejudicada mesmo por falta de comprador. Juntemos nossas trouxas e bora pra Vassouras. Mas, Zé, mudando de assunto, que invenção foi aquela de dizer que a festa de São Jorge e a cavalhada de SG vai acabar? Essas fofocas me incomodam, a festa é tradicional, é ruim de se extinguir, hein!


Pois é, caro leitor, mas infelizmente acabou, o senhor José de Sacramento, dono da maior propriedade do entorno e responsável por dar nome ao território, não viveu pra crer. Uma pena, morreu antes de ir pra Vassouras, a esposa faleceu um ano depois do marido. Não concluíram seus planos. E o tal Jessé Cristo adquiriu se sabe lá como as terras de Sacramento. Com o passar do tempo, acabou também o transporte de trem e só depois mais algumas décadas se acabaram as cavalhadas nas terras de gonçalenses. Simples assim, curto, decisivo, triste mesmo, eis aí a história do bairro Sacramento.


Erick Bernardes é escritor e professor mestre em Estudos Literários.



POLÍTICA