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Sem eira nem beira na Tiririca - por Erick Bernardes


Foto: contribuição de Beatriz Rezende. Ruínas de Sant'Anna, Magé.
Foto: contribuição de Beatriz Rezende. Ruínas de Sant'Anna, Magé.

Não há situação mais incômoda do que a criação gratuita de histórias visando à mistificação das coisas. Quem lê a nossa coluna conhece a pertinência de desconstruir a ideia de ser a nossa São Gonçalo um tipo de cidade dormitório. Isso mesmo, ideia criada, sabe-se lá por quem e por quê, para desmerecer o nosso município. Troço chato, assunto que se arrasta já vai lá um tempo. Não é à toa que venho todo domingo oferecer ao leitor narrativas mais dignas e mais contundentes.


Exemplo dessa propagação das incongruências impertinentes ocorreu quando eu me encontrava numa localidade chamada de Tiririca, encravada entre os bairros Covanca e Neves.


A história se contextualiza na rua Cônego Goulart, a qual faz esquina com a travessa Manuel de Barros, na altura da parte de trás do Colégio Santos Dias, também vulgarmente chamada de "rua da macumba" por causa das várias oferendas não raramente encontradas em sua encruzilhada.


Pois é, isso se deu por volta do ano de 2005, de quando eu ainda trabalhava como representante financeiro de empréstimos consignados para um desses bancos parasitários. “Alô, dona Margareth, cheguei”. Mas não foi bem a minha cliente quem apareceu:


_ Bom dia, sou Vicente, pai dela. Aguarde, por favor!



Sentado sobre a mureta da varanda, o português segredou ter imigrado da região denominada Póvoa do Varzim.


_ Chegamos cá, a família inteira, sem eira nem beira, para montar feira (E gargalhou da rima sem graça que conseguiu construir). Aliás, tu sabes donde vem o ditado “sem eira nem beira”, garoto?


Dois equívocos se produziram daí por diante. O primeiro foi ter chamado a mim de garoto, um homem de trinta anos e pai de família, eu estava longe de merecer tal vocativo. Seria isso um tipo de ironia lusitana? Não sei, confesso não ter certeza.


_ Então garoto, as gentes ricas lá em Portugal tinham casa com telhado triplo. Chamavam suas partes de eira, beira e o cume de tribeira. No caso das pessoas pobres, essas só construíam a parte mais alta (tribeira). Por isso se diz “sem eira nem beira, quando se refere a alguém sem dinheiro e sem posses.


O coroa lusitano e morador da Tiririca fez questão de ostentar ares de professor. Mas estava errado, totalmente equivocado e metido a inteligente o velho falastrão. Retruquei:


_ É nada, senhor. Não é bom propagar palavras que mais parecem lenda popular que informação. Já não chega um certo autor dos livros Cambadas que narra histórias ouvidas por aí?A expressão ‘sem eira, nem beira’ tem um significado atual que se refere às pessoas sem posses, sem bens materiais. Nem ditado lusitano isso é, está relacionado à vida colonial totalmente brasileira. No sentido literal, “eira” é um terreno de cimento ou terra batida, onde são postos grãos para secar ao ar livre. A beirada da “eira” é chamada de “beira”. Há casos em que a eira não possui beirada, os grãos acabam sendo levados pelo vento, deixando o proprietário de mãos vazias” (2022). Outra versão dá conta de serem as eiras (do latim: area) espécies de quintais, sítios ou fazendas. Aquelas pessoas que têm um chão para fixar suas famílias teriam terras (eira) e um teto para ficar (beira).


Enfim, seja qual for a versão, o certo é que as histórias não se assemelham à fanfarronice do português falador. E nada da cliente Margareth chegar, lá na Tiririca, localizada na Covanca.


Referências: https://www.gramatica.net.br

 

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Erick Bernardes é escritor e professor mestre em Estudos Literários.