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Sobremesa (Nós três de uma vez)

Por D.Freitas

Reprodução Meta AI
Reprodução Meta AI

É inexplicável o que traz a saudade, e ainda mais inexplicável os sentimentos trazidos por um reencontro. Há muito não os encontrava e nunca os recebi em minha casa. Desde que éramos crianças eu nunca fui muito organizado com minhas coisas e sempre inventei inúmeras desculpas para que não fossem me encontrar no meu refúgio. Do contrário, já ocorreram inúmeras vezes. Vezes na casa dele, às vezes na casa dela e depois que se casaram, sempre na casa dos dois. 


É inexplicável o que a saudade traz, e ainda mais inexplicável os sentimentos trazidos pela falta de encontros. Sentimento este que me fez convidá-los pela primeira vez a atravessar a porta do meu canto. Barreira rompida poucas vezes por pessoas que não eram da minha família, barreira que se desmontou rapidamente quando atravessaram o vão da porta em um abraço apertado. Nós três de uma vez. Recebi dois beijos na bochecha, simultaneamente. Ficamos alguns segundos apertados nesse abraço até que nos soltamos e encaramos os rostos uns dos outros. Estudando as diferenças trazidas pelo tempo. 


Nele sobram pelos no rosto e faltam na cabeça. No entanto, é algo não tão evidente estando constantemente raspado, ao que aparenta. Seu corpo está ainda maior. Parece até mesmo que ganhou mais alguns centímetros de altura. Seus olhos se revelam insones. Do seu lado se encontra provavelmente o motivo da insônia. 


Ela não mudou tanto. Apenas o corte de cabelo. Ela sempre esteve cacheada, mas ultimamente o usa liso até abaixo da cintura. Tem quase a metade do nosso tamanho, o que a faz nos olhar sempre de queixo erguido enquanto nós abaixamos a cabeça pra poder te olhar. Mudaram também a quantidade de tatuagens que cobrem sua pele. O seu braço direito é basicamente coberto até a clavícula e um pouco mais abaixo. 


Não sei o que viram em mim. Não sei se mudei algo em minha aparência. Dele escapa para mim uma olhada de cima a baixo sem muita expressão. Dela escapa uma mordida muito sútil no lábio, ou foi só a minha cabeça lembrando do passado. 


Jantamos um macarrão horrível que tentamos fazer uma réplica do que fazíamos como criança. Cada um escolhia aleatoriamente um ingrediente e misturava a receita maluca. No fim, sempre ficava muito bom. Talvez o nosso paladar tenha amadurecido ou tenhamos perdido a harmonia culinária. 


Na conversa não perdemos a harmonia. Não demorou para eu contar para eles a única coisa sobre mim que escondo a sete chaves e sobre meus planos para o futuro. Me abri também sobre o livro que tô escrevendo. Disse até mesmo que talvez eles fossem personagens do meu livro. Ele disse que é sem sal demais para ter uma página. Lembrei das vezes que ele me salvou e das vezes que ele me fez rir. Lembrei das vezes que eu o livrei das broncas da mãe e de como comemoramos quando ele deu o primeiro beijo. Rimos. Ela tinha certeza que estaria no meu livro. Não comentou nada sobre esse fato, mas me olhou com essa certeza por trás da taça de vinho enquanto eu garfava aquela gororoba terrível. 


Em contrapartida, eles me contaram o que poderia ser visto no Instagram. Contaram que estavam felizes nesses anos casados, que tiveram um filho e que estão se mudando de Brasília pro Sul. Falaram que tinham medo de voltar pro Rio de Janeiro por medo da violência mas que sentiam saudades dos amigos. Eles tinham muitos, além de mim. Disseram que nenhum era como eu.


A bebida chamou um por vez ao banheiro do apartamento com o passar da noite. Então falavam o que não se tinha acesso no Instagram: Quando ela saiu da mesa deixou pra trás seu perfume enjoativamente doce que era quebrado por algo defumado que misturamos no molho do macarrão. Deixou para trás também dois homens que, apesar de amigos, tinham arestas a aparar. Apararam enquanto ela ia ao banheiro. Ao fim da conversa ele se levantou, me deu um tapinha no ombro. Entendi então meu lugar e meu tamanho no mundo. 


Fiquei solitário por alguns segundos na mesa até me deparar com ela na varanda. Ela tem o hábito de ir à varanda respirar. Hábito este permanente mesmo após largar o fumo. Sem cigarro, apenas encarou o engarrafamento abaixo de seus pés instantes antes de me olhar por cima dos ombros enquanto eu me aproximava. Tive lembranças. Lembranças que escaparam enquanto estávamos a sós na varanda. 


É inexplicável o que faz a saudade.


É perigoso o que traz nostalgia. 


Ainda mais perigoso o que nós fizemos conosco.


Na porta, na mesa, na sacada e na vida.


Nós três de uma vez.


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Davi Freitas (D.Freitas) nasceu em São Gonçalo, cria da cultura gonçalense, desde sempre conviveu com músicos, poetas e escritores. autodidata, aprendeu violão e bateria sozinho e junto com o irmão Lucas Freitas fez algumas apresentações até ter, por motivos profissionais, que mudar de estado. Como escritor, participou, pela Editora Apologia Brasil da Antologia em Tempos Pandêmicos e inicia agora sua trajetória no mundo das crônicas e contos. 



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