São Gonçalo de costas para o futuro
- Jornal Daki

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Por Oswaldo Mendes

É óbvio que uma cidade que vem perdendo moradores dia a dia e já teve mais de um milhão de pessoas não pode continuar sendo tratada como bairro de passagem. Cidade dormitório nunca mais.
São Gonçalo cresceu de costas para seu futuro e para a Baía de Guanabara, de costas para o próprio potencial e, na maior parte do tempo, de costas para as decisões que definem seu futuro. Trilhos, barcas, empregos qualificados e leitos de hospital não são luxo. São o mínimo que se cobra de um Estado que se diz republicano.
A Linha 3 e a promessa debaixo d'água
Muita gente já usou a Linha 3 como proposta eleitoral, mas até agora só veio o MUVI — que, na prática, é a supremacia do ônibus: os empresários adoram o projeto, mas não fale a palavra "Transporte de Massa" perto deles. Anunciada diversas vezes, a Linha 3 segue no papel, enquanto até a Linha 4 do Metrô, do outro lado da Baía, já existe e ainda foi prolongada.
A Linha 3 do Metrô ligaria a Praça XV, no Rio, a Guaxindiba, em São Gonçalo, com parada em Niterói, na Praça Araribóia. São 21,7 quilômetros, 15 estações, R$ 14,6 bilhões de investimento e um túnel sob a Baía de Guanabara — a primeira linha de metrô intermunicipal do Estado. A licitação dos estudos foi anulada pelo TCE-RJ em julho de 2024, por irregularidades no processo, e segue sem novo prazo confirmado até hoje. Os primeiros trechos seguem projetados para 2031; a obra completa, para o fim de 2032 — se um dia sair do papel.
Para ver como a população é iludida: a quem interessa que o "Transporte de Massa" nunca saia do papel, enquanto o transporte rodoviário segue intocável, mandato após mandato? Quem está por trás dessas "barricadas políticas" que emperram, sempre, o mesmo projeto?
Sete anos entre o anúncio e a entrega. Quantos prefeitos, governadores e promessas de campanha cabem nesse intervalo? Causa e efeito: enquanto o papel não vira trilho, a população continua no ônibus, na moto, na fé.
Aí vem outra pergunta para os ditos Gestores da cidade: qual é o motivo de São Gonçalo ainda não ter o ônibus gratuito, como já tem Maricá e Itaboraí, aqui do lado?
Barcas: vinte anos de estudo de viabilidade
Enquanto Niterói, Paquetá, Ilha do Governador — pelo terminal de Cocotá — e Magé já navegam há décadas pela Baía com a CCR Barcas, São Gonçalo, maior cidade da região, segue sem estação. A primeira licitação prometendo barcas para o município foi em 1998. Em 2026, o novo concessionário ainda precisa apresentar, em até um ano de contrato, um novo estudo de viabilidade técnica, econômica, financeira e ambiental. De novo.
Moradores já reuniram cerca de 2.500 assinaturas cobrando o que outras cidades da mesma baía já têm. Aquilo que não é visto não é lembrado, já escrevi aqui outras vezes, mas uma baía inteira, à vista de quem mora em Gradim, no Boa Vista ou no Zé Garoto, deveria ser lembrada todo santo dia.
Helipontos e heliportos: mobilidade também é emergência
Enquanto trilho e barca não saem do papel, falta discutir o que resolve hoje: heliponto para remoção de urgência e emergência, e ao menos um heliporto regional articulado com os hospitais de referência — uma ligação aérea semelhante à que já existe com a Bacia de Campos e outras plataformas petrolíferas. Uma cidade com o tamanho e a densidade de São Gonçalo, cercada de gargalos viários, não pode depender só de ambulância parada em fila de asfalto para socorrer quem sofre um infarto ou um politrauma. Isso também é gestão da mudança; isso também salva vida.
A economia do mar bate à porta — e a cidade precisa estar pronta
Em Itaboraí, vizinha de porta, o antigo COMPERJ — hoje Complexo de Energias Boaventura, da Petrobras — inaugurou em setembro de 2024 sua unidade de processamento de gás natural, com capacidade para 10,5 milhões de metros cúbicos por dia, e segue com obras para as unidades de refino e lubrificantes, o GASLUB.
As estimativas de empregos diretos vão de 15 mil, no cenário mais conservador, a 31 mil. Já existe previsão de um centro de formação profissional em São Gonçalo, capaz de qualificar cerca de 30 mil profissionais em 11 municípios da área de influência do projeto. A cidade e a região precisam formar Técnicos em Polímeros. Mostrem-nos uma escola, na região, com essa formação técnica.
Isso não cai do céu. Sem curso técnico adaptado — soldagem, instrumentação, segurança do trabalho, logística portuária, tudo aquilo que a chamada economia do mar exige — o emprego vai para quem já chegou pronto de outra cidade, e São Gonçalo, mais uma vez, assiste de fora ao próprio quintal.
Hospital da Mãe: mais de dez anos parado, R$ 10 milhões gastos, ninguém entregue
O Hospital Estadual da Mãe, em Colubandê, segue abandonado há mais de uma década. O Tribunal de Contas do Estado — TCE-RJ — já apurou mais de R$ 10 milhões investidos numa obra jamais entregue à população, com suspeita de pagamento de multas, juros e serviços sem execução efetiva. Em abril de 2026, o deputado estadual Professor Josemar levou denúncia ao Ministério Público cobrando apuração. A Secretaria de Estado de Saúde responde que o projeto está "em análise técnica" e que pretende relicitar a obra. Sem data.
Outro assunto pendente é a questão da Urgência Nefrológica. Fica a pergunta, sem resposta fácil: e numa urgência renal — um cálculo, uma pedra que trave o rim e exija intervenção cirúrgica — para qual hospital ou posto de saúde do município a pessoa deve ir? Quem tem o plantão, o urologista, a sala pronta para isso hoje, em São Gonçalo?. A outra parte é a cidade responder, com nome e endereço, antes que alguém precise descobrir isso no meio da dor.
O que fica
Causa e efeito, outra vez:
a- Cobrar prazo e transparência na nova licitação da Linha 3, anulada pelo TCE-RJ em 2024 e sem data até hoje;
b- Exigir do novo concessionário das barcas o estudo de viabilidade que a cidade espera desde 1998;
c- Planejar heliponto e heliporto como parte da rede de urgência e também para uso empresarial, criando emprego e renda, não como sonho distante;
d- Adaptar, desde já, cursos técnicos voltados à economia do mar e ao Complexo de Energias Boaventura, para que o emprego gerado em Itaboraí não passe ao largo de quem mora aqui, em São Gonçalo;
e- Retomar o Hospital da Mãe, em Colubandê, e fortalecer a rede pública de atendimento a quem sofre de doença renal;
f- Reindustrializar a cidade é prioridade. É preciso retomar o processo que fez de São Gonçalo a "Manchester Fluminense" — apelido herdado do auge têxtil e industrial do século passado. O que a cidade se tornou hoje também passa por nomes adequados no Poder Legislativo e no Executivo;
g- Para quem não sabe: São Gonçalo tem, desde 2011, aprovação da Agência Nacional de Aviação Civil — ANAC — para seis helipontos, por Indicação Legislativa de quando o Dr. José Luiz Nanci era deputado estadual. O projeto foi abandonado, aumentando o abismo de gestão e mobilidade entre as cidades da região;
h- A importância da Estrada de Ferro 118 para a economia da região — pauta que já detalhei aqui, em artigo publicado em agosto, e que ainda não chegou às mesas de decisão da cidade, com todas as suas causas e efeitos, inclusive os negativos de uma eventual não instalação.
São Gonçalo não pode continuar sendo a cidade que só aparece na notícia nas páginas policiais, de corrupção, de mão de obra barata, de obra parada. Que apareça, para variar, na notícia de obra entregue.
Cuidemos da nossa Baía e de nossa cidade. Cuidemo-nos.
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Oswaldo Mendes é engenheiro e professor.








































































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