O abismo nas telas
- Jornal Daki

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- 2 min de leitura
Por Mira Pimentel

Tenho aprendido a ler o cotidiano pelos olhos das pessoas.
Procuro nos rostos aqueles antigos espelhos que refletiam outros rostos. Procuro o encontro, a presença, a humanidade.
Mas, cada vez mais, encontro telas.
O celular, silenciosamente, deixou de ser ferramenta.
Tornou-se protagonista. Está na palma das mãos, nas mesas, nas filas, nos encontros, nas famílias, nos silêncios.
Está roubando minutos, horas, dias e talvez pedaços inteiros de nossas vidas.
Estamos conectados ao mundo e, paradoxalmente, cada vez mais distantes de nós mesmos.
Não quero generalizar. Ainda existem os que preferem olhos nos olhos, uma conversa sem notificações, um abraço sem registro, uma presença sem fotografia.
Eu prefiro esses.
Porque há uma energia no olhar humano que nenhuma tela consegue reproduzir. O olhar nos calibra. Nos devolve ao outro.
E, às vezes, devolve-nos a nós mesmos.
O problema é que tudo aquilo que nos tira de nós pode se transformar em obstáculo ao autoconhecimento.
E talvez seja esse o grande negócio da nossa época: manter-nos ocupados demais para que não tenhamos tempo de perguntar quem somos, o que queremos e para onde estamos indo.
Enquanto deslizamos os dedos pelas telas, a vida continua acontecendo do lado de fora.
Instituições se degradam.
A desigualdade cresce.
A saúde adoece.
O transporte sufoca.
A moradia vira privilégio.
O trabalhador envelhece pagando impostos e boletos, muitas vezes sem receber de volta a dignidade que deveria ser obrigação de uma sociedade.
E estamos criando gerações cada vez mais ansiosas, solitárias e desesperançadas.
Socorro.
Precisamos SENTIR esse abismo.
Não precisamos abandonar a tecnologia.
Precisamos recuperar o comando sobre ela.
Precisamos voltar a olhar.
A conversar.
A discordar.
A pensar.
A participar.
A sonhar.
Precisamos reconstruir valores antes que a ganância termine de ocupar o lugar da humanidade.
Democracia não é apenas votar.
Cidadania não é apenas pagar impostos.
Desenvolvimento não é apenas produzir mais.
Viver não pode ser apenas sobreviver.
Quero acreditar que ainda existe saída.
Talvez ela comece com um gesto pequeno e revolucionário: levantar os olhos da tela e olhar para alguém.
Sem filtro.
Sem algoritmo.
Sem pressa.
Olho no olho.
Porque talvez tenhamos passado tanto tempo procurando o mundo nas telas que esquecemos de procurar o ser humano dentro de nós.
E talvez seja justamente aí que esteja o caminho de volta.
O sucesso está além dos limites.
Não o sucesso que mede dinheiro, poder ou aparência.
Mas o sucesso de quem consegue ultrapassar aquilo que o aprisiona e recuperar a própria consciência.
Antes que o abismo nos engula.
Antes que a tela se torne a nossa história.
Antes que esqueçamos de viver.
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Mira Pimentel é cronista.








































































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