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Vale o escrito

SÃO GONÇALO DE AFETOS


Por Paulinho Freitas


Foto: Jornal Daki com IA
Foto: Jornal Daki com IA


A mesma frase que serve como afirmação de “honestidade” pela contravenção no jogo do bicho, também é atribuída ao destino. Só vale o que ele escreveu, o que se sonha nem sempre se realiza e o que se batalha a vida toda para conseguir foge das mãos feito água ou o vento que se sente, mas não se pode pegar. Agora, o que ele escreve não tem jeito. É feito palavra que não se cala diante da dor, ou que não se fala diante do inquisidor, feito maçã verde que madura sem perder a cor, feito a insistência do amor. 


Passou por mim ainda agorinha um casal de mãos dadas com uma menininha de uns sete anos de idade mais ou menos. Seriam só mais três pessoas passando por mim sem nenhuma importância se eu não reparasse no semblante dele e no andar dela. Eram Antônio Jorge e Alcênia. Os conheci quando eu era ainda um guri e eles já estavam saindo da adolescência. 


Antônio Jorge era assim, “uma casa muito engraçada”, ele não sorria, olhava para as pessoas com um olhar desconfiado até para dar bom dia. Não me lembro de tê-lo visto sorrir uma única vez. Passava sempre cheio de livros nas mãos, andava meio de frente, meio de lado, sei lá, não dá nem para descrever, mas se você o viu uma vez nunca mais esquece. Era apaixonado por Alcênia, mas não tinha coragem de se declarar e nem teria chance. Era feio e pobre. Chance zero com a maioria das meninas da época que se interessavam por alguém que lhes desse status, causasse inveja nas amigas e a esperança de um final de novela, tipo felizes para sempre. 


Alcênia era filha única, morava com a mãe e sobreviviam da parca pensão que o pai havia deixado ao falecer. Alcênia “pegou” todos os rapazes bonitos do bairro, era chamada de piranha pelas mulheres e cobiçada por todos os homens. O andar de Alcênia era enlouquecedor, parecia que ela desfilava, um balançar de corpo inigualável e o sorriso de fazer qualquer um babar. Além de uma simpatia impar. 


Saía com os mais jovens por prazer, gostava de namorar, de transar, de ser feliz. Agora, com alguns comerciantes mais velhos era para levar vantagem, seja financeira ou através de uma jóia ou outra coisa qualquer que ela desejasse e não tinha pudor algum em dizer a eles que dava seu corpo por interesse e que acabou a transa ali, que tomassem seu rumo. 


Antônio Jorge ela não queria nem por dinheiro e nem por presente nenhum do mundo, mas ele não desistia e a cada vez que a via passar parava tudo o que estava fazendo e ficava olhando para ela, como se ela fosse um astro no céu, inalcançável, inatingível, até que ela sumisse no final da rua. Dizia ele que a esperaria até o final dos tempos. Esse tal de amor quando cisma de grudar em alguém, não larga nem com trovoada. 


Alcênia já estava balzaca quando engravidou de Alice. Nunca revelou quem era o pai, mas precisava agora se sustentar, sustentar a mãe que desde a morte do pai não conseguia estar lúcida o tempo todo e a nova vida que agora dividia o mesmo corpo com ela, mas quando nascesse as despesas viriam num crescente. O corpo estava mudando, já não tinha muitos convites para sair e todo mundo tinha medo de ser visto ao lado dela. Não queriam ser apontados como o pai do rebento.  


Aproveitando este momento Antônio Jorge atacou com força. Propôs a ela assumir a criança, ela e a mãe. Seria o pai, marido e genro dos sonhos de qualquer família. Ela não precisava nem deitar com ele. Só o faria se assim desejasse. Respeitá-lo como companheiro de jornada, para ele era o essencial. A princípio ela rechaçou a proposta e até humilhou o rapaz, mas as coisas foram apertando e ela não teve saída.

 

Tantas foram as demonstrações de carinho com ela e com a mãe e ainda o jeito com que ele tratava Alice era de emocionar. Até o sorriso dele apareceu, como uma fruta temporã, ele sorria a cada gracinha que a menina fazia, a abraçava e beijava a criança, feliz todas as vezes em que ela o chamava de pai. Demorou algum tempo até Alcênia perceber que estava completamente apaixonada por Antônio Jorge. 


Hoje, vendo os dois passeando com a netinha, na minha cabeça, penso que o destino assinou o final da história de Antônio Jorge e Alcênia: “... E são felizes para sempre!” 


Vale o escrito! 


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Paulinho Freitas é compositor, sambista e escritor.

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