Quando um grito não encontra ouvidos
- Jornal Daki

- há 2 dias
- 4 min de leitura
Por Mira Pimentel

Um adendo necessário.
Antes de começar esta crônica, preciso fazer uma ressalva.
Talvez muitos leitores deste jornal nunca tenham ouvido falar de Hugo.
Sua história não ocupou as páginas dos grandes jornais, não ganhou manchetes, não se transformou em assunto nacional.
Mas ela circulou, chegou a espaços de defesa e acolhimento da população LGBTQIA+ em Maricá e, de alguma maneira, chegou até mim.
Não escrevo, portanto, como quem pretende apresentar ao leitor toda a história de Hugo.
Não tenho essa pretensão.
Escrevo como alguém que tomou conhecimento de uma vida que terminou cedo demais e que, diante dela, não conseguiu permanecer indiferente.
Não é necessário conhecer todos os detalhes de uma história para reconhecer quando existe sofrimento.
Não é preciso ter convivido intimamente com alguém para compreender que uma vida humana merece ser olhada com mais cuidado.
É desse lugar que escrevo: o lugar de quem observa, pensa, sente e se pergunta.
O que a morte de Hugo pode nos ensinar sobre a maneira como estamos cuidando uns dos outros?
E talvez seja justamente aí que esta história deixe de ser apenas sobre Hugo.
Porque existem muitos Hugos espalhados por aí.
Pessoas que vivem próximas de nós, mas que permanecem invisíveis.
Pessoas que sorriem enquanto desabam.
Pessoas que pedem ajuda sem saber pedir.
Pessoas que passam por nós carregando um sofrimento que não conseguimos ou não queremos enxergar.
Ainda estou tentando colocar Hugo dentro de mim.
Talvez algumas mortes nunca encontrem um lugar definitivo dentro de nós.
Elas permanecem como perguntas. Como silêncio. Como uma porta que se fecha e, do outro lado, deixa uma vida inteira que não conseguimos mais alcançar.
A morte de Hugo me fez compreender uma coisa que dói dizer: talvez sua partida tenha sido também um grito para a sociedade que o cercava.
Um grito para os vizinhos que conheciam alguma parte da sua história.
Para aqueles poucos que tiveram acesso à sua intimidade. Para quem percebeu sua solidão, sua fragilidade, suas dores. E também para as estruturas que deveriam existir para acolher pessoas em sofrimento.
Não digo que saibamos exatamente o que levou Hugo à morte. Não sabemos.
E seria injusto transformar uma vida tão complexa em uma explicação simples.
Mas sabemos que ele sofreu.
E isso deveria bastar para nos fazer parar.
Quantas vezes alguém está diante de nós e nós enxergamos apenas o corpo, mas não enxergamos a alma?
Quantas vezes alguém muda o jeito de falar, desaparece, se isola, pede atenção de maneira silenciosa, e nós respondemos: “Isso passa”?
Quantas vezes confundimos sofrimento com fraqueza?
Estamos ficando perigosamente acostumados à dor dos outros.
Talvez a grande tragédia do nosso tempo seja essa: conseguimos assistir ao sofrimento sem permitir que ele nos atravesse.
E eu não quero me acostumar.
Quero continuar chorando pelos que choram.
Quero continuar acreditando que uma mensagem pode interromper uma noite de solidão. Que uma visita pode devolver pertencimento. Que uma conversa pode abrir uma janela onde só havia escuridão.
A Bíblia nos ensina:
“Amados, amemo-nos uns aos outros, porque o amor procede de Deus.”
1 João 4:7
E nos ensina também:
“Alegrai-vos com os que se alegram; chorai com os que choram.”
Romanos 12:15
Talvez tenhamos esquecido justamente isso: chorar com quem chora.
Não precisamos ter respostas para tudo. Às vezes precisamos apenas estar.
Precisamos perguntar:
Você está bem?
E, principalmente, precisamos ter coragem de permanecer quando a resposta for: Não.
É claro que amor não substitui tratamento. Fé não substitui psicologia, psiquiatria, assistência social ou políticas públicas.
A espiritualidade, porém, pode ser uma dimensão importante do cuidado, especialmente para quem encontra nela sentido, esperança e pertencimento.
Precisamos falar com nossos jovens sobre isso.
Precisamos dizer a eles que procurar ajuda não é vergonha. Que procurar um psicólogo não é sinal de fraqueza. Que conversar com alguém de confiança é um ato de coragem. Que também é possível buscar uma orientação espiritual séria, acolhedora e responsável.
Porque somos corpo, mente e espírito.
E quando uma dessas dimensões adoece, todo o nosso ser pode sentir.
Mas há outra coisa que precisamos recuperar: a comunidade.
Talvez os bairros precisem voltar a ser lugares onde as pessoas se reconhecem.
Precisamos de mulheres organizadas nos bairros. De homens e mulheres dispostos a cuidar. De grupos comunitários, igrejas, associações, coletivos, profissionais, educadores e pessoas simplesmente comprometidas com a vida.
Não para substituir o Estado.
Mas para fazer a nossa parte.
Sociedade civil, chegou a hora de fazermos a nossa parte.
Não podemos esperar que todas as dores cheguem às autoridades para então percebermos que alguém estava sofrendo.
Um olhar mais profundo sobre o outro já seria uma revolução.
Uma mensagem.
Uma ligação.
Uma visita.
Um café.
Um “estou aqui”.
Talvez não possamos salvar todas as pessoas.
Mas podemos nos recusar a ser indiferentes.
Porque existe uma frase que deveria nos acompanhar todos os dias: Eu não consigo estar bem se meu irmão não está.
Que triste involução é uma sociedade onde cada um se preocupa apenas em sobreviver, enquanto o outro desaparece ao nosso lado.
Eu sei que a vida está difícil. Sei que todos carregamos nossas próprias urgências, nossas dívidas, nossas dores, nossos medos e nossas batalhas.
Mas talvez seja justamente por isso que um pequeno gesto tenha tanto valor.
Quando não temos dinheiro, podemos oferecer presença.
Quando não temos respostas, podemos oferecer escuta.
Quando não sabemos o que fazer, podemos procurar ajuda junto com quem está sofrendo.
E quando a nossa fé é verdadeira, ela não nos afasta do sofrimento do outro.
Ela nos aproxima.
Porque talvez seja isso que significa ser canal do Criador: permitir que, através das nossas mãos, alguém receba um pouco do amor que já não conseguia enxergar.
Hugo não pode voltar.
Mas a história dele pode nos fazer voltar para alguma coisa que estamos perdendo: a humanidade.
Que a sua partida não seja apenas uma notícia triste.
Que seja uma convocação.
Que nos ensine a olhar mais demoradamente.
A perguntar duas vezes.
A ouvir até o fim.
A procurar ajuda.
A cuidar.
A amar.
Porque, no fim, talvez seja essa a nossa missão mais simples e mais difícil: não deixar nosso irmão atravessar sozinho a noite.
Se você ou alguém próximo estiver sofrendo:
CVV — Centro de Valorização da Vida: 188
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Mira Pimentel é cronista.








































































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