Maria de Lourdes
- Jornal Daki

- há 37 minutos
- 3 min de leitura
SÃO GONÇALO DE AFETOS
Por Paulinho Freitas

Abraão era primogênito de uma família evangélica na zona rural de São Gonçalo. O pai, muito severo, não permitiu que os filhos frequentassem a escola regular. Só aprenderam a ler para ter os ensinamentos bíblicos e não podiam brincar e nem frequentar lugares que não comungassem com a religião deles. Abraão era obediente e fiel escudeiro do pai, embora não concordasse com algumas passagens bíblicas, vivia se perguntando:
“Se a família de Adão eram os únicos humanos da terra, depois que Cain matou Abel, mudou-se e casou-se. Com quem?"
Outra:
"A mulher de Ló virou estátua de sal. Quem olhou para trás e a viu petrificada? E por que não virou estátua de sal também?"
Mais uma:
"Como Noé colocou mosquitos, ratos e outros bichos transmissores de doenças na arca e ninguém lá ficou doente?"
Muitas outras perguntas circundavam a mente de Abraão, mas ele ficava quieto para não desagradar o pai.
Depois da morte do pai e muitas leituras da Bíblia, buscando as respostas que precisava e as tirando sabe-se lá de onde, Abraão se rebelou e fundou sua própria igreja. Lá era ele quem dava as ordens e suas ovelhas só andavam no caminho determinado por ele.
Casou e dessa união nasceu Maria de Lourdes, que todos chamavam de De Lourdes. Eram obrigadas, ela e a mãe a vestirem roupas de mangas compridas, vestidos e saias tão longas que não se via os pés. Não podiam cortar os cabelos, pintar as unhas, nem tão pouco usar maquiagem. Só podiam andar atrás dele e olhando para o chão.
Maria de Lourdes tinha três dedos da mão direita paralisados, devido a um golpe de ripa desferido por Abraão quando esta, na inocência de criança aceitou um saquinho de doces oferecidos na rua numa tarde do dia de São Cosme e São Damião, eles ficaram atrofiados, só o polegar e o dedo mínimo mexiam.
Puseram o apelido nela de capitão Gancho. Ela não sofria tanto por isso, chorava mais quando o pai chegava a cavalo e ficava tentando impressionar a vizinhança fazendo o bicho cumprir suas ordens, sem adestramento. Como o animal não respondia a seus comandos ele metia as esporas nas costelas dele até sangrar. Quando cansava e finalmente apeava, o animal estava destruído e o semblante dele dava dó.
De Lourdes cresceu sem amigos, pois além do pai não admitir que ela tivesse contato com ninguém que não fosse da igreja, não tinha o perfil aceito pela sociedade e ela não fazia questão, pois não sabia ler direito, não via televisão, não ouvia as rádios convencionais, não sabia das coisas do mundo. De tanto ouvir “não pode, ” se acostumou a não poder, a não querer, a não ser.
A mãe faleceu quando ela fez quarenta anos e logo depois o pai sofreu um AVC que o deixou entrevado na cama, sem falar e sem andar. Maria de Lourdes cuidou dele vinte e quatro horas por dia durante cinco longos anos, findo os quais Abraão amanheceu de olhos e boca abertos e carne gelada.
O tempo passou, mas Maria de Lourdes continua a mesma. Ela é como um passarinho tirado do ninho e posto na gaiola, quem garante que ele canta? Talvez chore a liberdade que nunca teve.
Ela tem uma bela voz, canta e encanta nos cultos e volta para casa como se Abraão ainda estivesse aqui. De cabeça baixa e olhos no chão, não vê o céu nem as estrelas, não sonha, não vive.
A vida passa por ela, que não percebe a vida.
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Paulinho Freitas é compositor, sambista e escritor.








































































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