top of page

A escolha - por Paulinho Freitas

SÃO GONÇALO DE AFETOS

Reprodução Internet
Reprodução Internet

Numa tarde chuvosa Belarmino sai do centro da cidade do Rio de Janeiro em direção à sua terra natal, a grande cidade de São Gonçalo do Amarantes. Cidade de grandes poetas, músicos, atores e atrizes, artistas plásticos, jornalistas, produtores, escritores, compositores, sambistas, gente do comércio, da agricultura, da indústria e gente da rua que observa o amanhecer e o anoitecer, a vida da madrugada, seres que só são vistos por quem anda na noite ou pela noite.


Belarmino já andava de saco cheio de ir e vir todos os dias naquele ônibus lotado que ficava engarrafado na Ponte Rio-Niterói durante 30, 40 minutos, às vezes uma hora, parar no Bar para tomar uma única cerveja, pois o dinheiro que tinha no bolso era contado.


Chegar em casa e ver a mulher ralando, depois de um dia inteiro de trabalho ainda tinha que cuidar dos filhos, da casa, das roupas, dar de comer a todos e ainda ir dormir com um sorriso nos lábios por ter aquele trabalhão todo, um sacrifício dos infernos só para ver os filhos sorrindo e ter um carinho do marido. “Mulher tem que ser estudada”. Pensava Belarmino ao vê-la se enroscando no corpo dele para dormir.


Certo dia, Belarmino foi despedido do emprego. Dez longos anos de trabalho sem faltar um dia, às vezes nem almoçava para dar conta de tantas metas a bater. O dinheiro da indenização logo acabaria e pela idade que tinha não seria fácil encontrar um novo emprego com o mesmo salário. Agora as empresas contratam em home office, ou pessoas mais novas com mais estudo e ganhando duas, às vezes três vezes menos que o funcionário antigo.



Belarmino voltando para casa passou no bar para beber aquela que talvez fosse sua última cervejinha descompromissada, dali para frente o dinheiro que tinha teria que ser muito mais contado e recontado.


No bate papo com amigos foi chamado para um canto por Conchinha. Um esporádico companheiro de copo, sem intimidade, mas que de quando em vez aparecia lá no bar e bebiam juntos falando coisas da vida. Conchinha fez uma proposta de difícil aceitação, mas tentadora demais da conta:


_ Belarmino, tem dois caras na minha alça de mira, vou ter que matar um dos dois, mas estou na dúvida. Faço um negócio contigo: Te mostro os dois e você vai me dizer qual eu mato. Não pode perguntar o porquê e nem interceder por eles. Se você apertar minha mão não tem volta. Depois que eu fizer o serviço te dou em pagamento uma quantia em dinheiro que você não vai precisar trabalhar para o resto da vida, você não se envolve com nada, ninguém vai ficar sabendo de nada, só me diz qual vai morrer, o resto é comigo. Daqui a pouco eles vão passar por aqui. Se você topar o negócio não pode correr, se você gaguejar mato os dois e você perde o dinheiro.


Belarmino pensou um pouco, esses dois deveriam ser uns cracudos que ficam ali pela igreja fazendo pequenos furtos ou acharcando motoristas que estacionam os carros por ali. Não iam fazer a menor falta no mundo. Apertou a mão de Conchinha fechando o negócio.


Não demorou muito um grupo de rapazes passa pela rua em gargalhadas, Conchinha aponta os dois que Belarmino teria que escolher. Para o desespero dele os dois rapazes eram seus filhos. Belarmino entrou em desespero e ia pedir para morrer no lugar do escolhido. Os rapazes passaram felizes, Belarmino desesperado e Conchinha, com uma arma nas mãos fazendo pressão:


_Escolhe! Quem vai morrer? O mais velho ou o mais novo? Escolhe!


Enquanto Belarmino ajoelhava no chão pedindo clemência, os rapazes pararam e ficaram olhando assustados, Belarmino gritando em desespero e Conchinha gargalhando e gritando com a arma nas mãos:


_Escolhe! Qual dos dois vai morrer! Fala! Quá,quá,quá,quá,quá,quá...


E gargalhava cada vez mais alto, curvando-se para trás, balançando o tronco.


Belarmino acordou suando em bicas, deu um pulo da cama, já amanhecera e era domingo, dia dos pais. Saiu do quarto correndo e deu de cara com os dois filhos no corredor, cada um com uma caixa de presente para ele. Depois de abraços, beijos e muita choradeira o mais novo perguntou:


_ Pai, qual presente o senhor vai abrir primeiro?


O que você faria caro leitor?

 

Ajude a fortalecer nosso jornalismo independente contribuindo com a campanha 'Sou Daki e Apoio' de financiamento coletivo do Jornal Daki. Clique AQUI e contribua.

Paulinho Freitas é sambista, compositor e escritor.