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Ditinho - por Paulinho Freitas

SÃO GONÇALO DE AFETOS


Foto: Pixabay
Foto: Pixabay

Ditinho é meu amigo de infância. Hoje conta com sessenta e uns anos e o mesmo sorriso, a mesma simpatia, a mesma cordialidade e empatia com todos os que necessitam de seus préstimos. Todos o amam, tanto as mulheres com quem tem um caso de amor torrencial, mas elas nunca souberam disso, tanto os homens que adoram ouvir suas mirabolantes histórias de conquistas impossíveis e fugas dignas de um filme de missão impossível, de quando é flagrado na cama de uma dama, cujo marido é ciumento, brabo, forte e capaz de amassá-lo com um simples peteleco. Ditinho não é fácil.


Lá pelos quarenta anos, todo mundo começou a pilhá-lo de que deveria ter uma companheira, uma pessoa para chamar de sua, para cuidar de sua casa, lhe dar carinho e aquecê-lo nas noites frias de um escasso inverno, mas que quando chega, chega a doer. Ditinho dava de ombros e saía pedalando sua amarela bicicleta acenando para todos que estavam na calçada. Parecia um político em dia de eleição.


Num desses dias de escasso inverno, na padaria do Celso, ele viu Aidê. Uma jambete uns vinte centímetros maior que ele e que com os saltos dos sapatos medindo mais quinze centímetros virava uma gigante. Ditinho foi fisgado pelo amor, se declarou, começaram a bebericar e amanheceram no sofá da sala da casa dele completamente nus e agarrados como gêmeos siameses. Duas semanas se passaram sem que os dois se desgrudassem. Onde estava um, lá estava o outro. Só que quando se acostuma a viver livre como os pássaros, a pousar em qualquer galho, de qualquer árvore, é difícil acostumar com um galho só, de uma árvore só.


Numa manhã de domingo Ditinho sentiu saudades da rapaziada do futebol, da cerveja gelada e do churrasco após a pelada, do mergulhar na praia das pedrinhas para curar o porre e já começar a beber de novo. E lá foi ele fazer a domingueira de solteiro. Quando Aidê acordou e não viu o amado a seu lado, seu peito se encheu de fúria, o ciúme doentio corroeu-lhe a alma e ela saiu à caça de seu bichano. Piranha nenhuma comeria seu gato! Ao chegar à padaria da Rua Capitão João Manoel, esquina com a Rua Paul Leroux lá estava Ditinho, já cantando um partido alto abraçado com uma sarará toda dengosa, agarrada no pescoço dele. Num ímpeto de fúria, Aidê já pegou uma garrafa e arremessou na direção dos dois, a sarará desapareceu sabe-se lá como, Ditinho com o microfone nas mãos ficou mudo e com os olhos arregalados como se tivesse visto um fantasma só exclamou: _Amooooor...!



Ela não o deixou terminar a frase e cobriu-lhe de tapas, como a mãe da gente fazia antigamente, falando em sílabas separadas: -Eu te dis-se que não que-ria ver vo-cê em pa-go-de ou em lu-gar ne-nhum sem mim! En-tão va-mos pa-ra ca-sa a-go-ra! Cada sílaba era um tapa. E saiu carregando Ditinho pelo braço embaixo de tapas e safanões, enquanto ele sorria sem graça e falava aos amigos: Ela está brincando, daqui há pouco a gente volta. A galera gargalhava e o domingo terminou assim.


Daquele dia em diante as coisas complicaram, as brigas aumentaram e os dois acabaram indo cada um pro seu lado. Ditinho voltou a sua vida normal de boemia e futebol, Aidê se enrabichou com Borró, um capixaba que morava na Rua Fontes. Só que Aidê não esquecia Ditinho e Borró era só ciúmes. Um dia Encontrou Ditinho na padaria e deu uns empurrões no baixinho. Não prestou. A mulherada presente já saiu estapeando Borró que teve que correr muito. Chegou em casa todo arranhado e ainda apanhou mais ainda. Primeiro porque tentou agredir Ditinho, depois, pelos arranhões que ela jura que foram feitos por amantes.


O fato é que os maridos das mulheres, ao saberem do acontecido foram tirar satisfação com Borró por ter faltado com respeito às suas respectivas mulheres. O negócio ficou feito, Borró ficou todo amassado, parecia um carro velho precisando de lanternagem.


O tempo passou e Ditinho estava consertando um telhado lá no morro da Madama, na casa da amante de um policial daqueles brabos, que não sorriem nem quando o filho nasce. O policial havia saído para comprar material, Borró passa na rua e vê Ditinho lá em cima e ameaçou cá de baixo: _Mermão! Quando tu descer daí vou te amassar na porrada! Tô no bar de Conceição e tu vai ter que passar por lá pra ir embora. Tô te esperando.


Ditinho tremeu tanto que quase derrubou o telhado com casa e tudo. Deu até goteira sem estar chovendo. A amante do policial, que a tudo assistia, contou a ele o acontecido e ainda disse que Borró a olhou com ares de desejo. Deu ruim. O policial deu de mão na pistola, chegou no bar de Conceição e agarrou Borró pelo pescoço já dando a sentença: _ Se liga na parada irmão: Se minha Mina passar na rua e tu olhar pra ela eu furo os teus dois olhos. Se Ditinho espirrar, corre na farmácia e compra remédio pra ele, porque, se alguma coisa acontecer a ele, vou começar arrancando tuas unhas com alicate, depois, cada dedo com cortador de unha, até tu não ter mais sangue. Tu entendeu?


Borró era mecânico, mas mesmo sem estar mexendo em carro, ficou todo sujo de óleo, aquele óleo grosso e fedorento como nosso velho, saudoso e excelente comediante José Vasconcelos já dizia e ficou só balançando a cabeça afirmativamente. Borró e Aidê se mudaram lá para o Morro da Jaqueira, quando descem para as compras ou para qualquer outra coisa o fazem pela saída da Inseticida Grilo, atrás da Serraria Paraiso. Ditinho anda por aí, namorando, pescando e jogando seu futebol dominical, protegido e protegendo todos aqueles que o cercam e que fazem parte de sua humilde, porém, rica trajetória.


“...É na simplicidade, que a felicidade, se faz...”


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Paulinho Freitas é sambista, compositor e escritor.