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Exemplos - por Paulinho Freitas

SÃO GONÇALO DE AFETOS

São Jorge/Reprodução Internet
São Jorge/Reprodução Internet

Lembro que na minha infância, via todas as segundas feiras meu pai acender uma vela na frente da imagem de São Jorge que ficava em cima de uma cômoda no quarto dele. Ele nunca foi de rezar, fazer o sinal da cruz, essas coisas que os católicos fazem diante das imagens. Ele ficava olhando e aquela cara carrancuda que parecia o mau humor em pessoa ia se desfazendo e ele parecia que ia diminuindo de tamanho como se virasse uma criança olhando para cima pedindo alguma coisa a alguém mais velho. Os olhos dele se enchiam de lágrimas e depois de um tempão ele voltava a ser aquele homenzarrão e saía do quarto como um general pronto para liderar seus exércitos em batalha.


No outro quarto, todos os dias às 18 horas minha avó se ajoelhava diante de um monte de santos em cima de sua penteadeira, junto com um monte de livros de reza e seu inseparável terço. Fizeram isso a vida inteira, até o último de seus dias.


Fui crescendo, lembrando-me dessas coisas, até um dia me pegar rezando, todos os dias perante a imagem de São Jorge num altarzinho que minha esposa fez na varanda de casa. Às terças feiras, sempre que posso, acendo uma vela para São Jorge e aos domingos uma para São Cosme e São Damião. Meu pai também acordava cedo e chegava ao trabalho sempre com mais de uma hora de antecedência de seu horário contratual, adorava estar sempre barbeado e perfumado. Eu sempre me pergunto por que faço as mesmas coisas que ele fazia, mesmo nem pensando que um dia iria fazer.



O respeito pelas pessoas, a educação no trato até com aquelas pessoas difíceis de lidar, coisas de mamãe e vovó, também tento, algumas vezes com sucesso, incorporar ao meu ritmo de vida. Mesmo meu coração pedindo para quebrar o pau eu prefiro tentar manter a calma, entender o meu interlocutor em sua ignorância e deixar o barco correr até ter uma chance de colocar as coisas com mais clareza e justiça.


Vejo meus filhos no trato com as pessoas e a reciprocidade que recebem em carinho, abraço, proteção e amizade por todos e fico feliz pelo presente que a natureza me deu fazendo com que de cada galho de nossa pequena árvore genealógica nasçam folhas verdes e frutos doces.


Na floresta da vida algumas árvores não estão sendo regadas direito, não estão sendo plantadas em terreno propício, suas raízes estão enfraquecendo, os galhos e as folhas caindo e quebrando antes do tempo. Está faltando exemplos, está faltando a poda na hora certa. Estão arrancando “nossa linda juventude das páginas daquele livro bom.”


A cada semana é mais um João que vai virar lembrança, nesta semana, mais um Moïse, e mais um João que vem para fazer uma vítima ou ser vítima da lambança que assola nossa sociedade. Está faltando saúde, educação, emprego, comida na mesa do trabalhador. Está faltando exemplo. Refletir e agir, enquanto é tempo.


“VIDA, ESPERO EU

MEU FILHO ENCONTRAR

MEU OLHAR EM CADA FILHO SEU.

(Paulinho Freitas)

 

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Paulinho Freitas é sambista, compositor e escritor.




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