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Feliz Natal - por Paulinho Freitas

SÃO GONÇALO DE AFETOS



Arte: Jornal Daki
Arte: Jornal Daki

Luiz Carlos da Vila tinha um conhecido cumprimento em qualquer dia, em qualquer mês do ano que encafifava muita gente. Ao chegar ou ao se despedir ele sempre dizia: “_ Feliz Natal!”


Alguns riam pensando ser uma pilhéria do nobre sambista, outros ficavam sem graça por não entender a piada. O que de piada não tinha nada. Na verdade o que ele queria era desejar um feliz dia, todos os dias, durante todos os meses do ano. Natal quer dizer nascimento e quando você abre os olhos todas as manhãs você nasceu de novo. Por isso o Feliz Natal.


Eu tenho vontade de fazer a mesma coisa, não comecei a fazê-lo ainda porque não tive a coragem necessária para imitar ou reproduzir este gesto do mestre.


Com esta introdução gostaria de relembrar uma história que conto todos os anos quando chega o natal. Todo mundo tem uma criança adormecida dentro do peito. A minha jamais dormiu, ela está presente em mim vinte e quatro horas por dia. Às vezes me perguntam de quê estou rindo e aí me dá vontade de rir mais ainda porque ninguém ia entender que eu queria mesmo era estar puxando o rabo do gato que está dormindo no sofá ou jogando uma pedra na mangueira em frente de casa para chupar uma manga fresquinha, ou ainda apertar a campainha do portão do vizinho e sair correndo, pegar a cadela, abrir o portão e sair correndo com ela pelas ruas em zigue-zague, pôr várias pipas no alto e arrebentar as linhas para que várias outras crianças as peguem e comece logo a temporada de pipas.



Tanta coisa essa minha criança interior queria fazer, mas hoje eu queria lembrar de um natal, um natal que não deixa minha criança adormecer. Todos os natais a gente está junto, sentado no degrau da varanda de uma casa na Travessa Jaú, lá no bairro Paraíso esperando certa pessoa. Toda vez que conto essa história eu choro, eu sei que vocês vão chorar também, mas não vão contar pra ninguém. Vocês, como eu também tiveram esse encontro, só que pensam que foi um sonho. Informo a vocês com grande alegria: Foi real! Aconteceu! O meu encontro foi assim:


Adoro a noite de Natal. Por mais pobre que alguém seja sempre há um prato diferente para por sobre a mesa. Lá em casa é uma festa muito alegre. A família se reúne e coloca os assuntos em dia. Já que no corre-corre da vida quase não nos falamos direito. As crianças que já estão mais para adultos, isso só na aparência, porque vendo os olhinhos deles brilhando a cada vez que alguém põe um presente na árvore é como vê-los de novo correndo uns atrás dos outros numa algazarra sem fim.


Eu gosto de estar na cozinha, não que seja bom no ofício, mas gosto daquele cheiro de assados e de fazer confusão, sendo expulso de lá a cada vez que belisco algum petisco.


Quando eu era criança, lembro que apesar dos poucos recursos, minha mãe sempre fazia rabanadas e galinha assada com farofa. Quando não tinha refrigerante, sempre tinha um refresco. A árvore era criativa. Todos os anos ela pegava um galho de árvore e enrolava-o todo com algodão e enfeitava com bolas coloridas. Para fixar a árvore envolvia uma lata grande com papel de presente e enchia-a de terra. Ficava uma beleza.


Os presentes eram simples: Boneca e livros para minha irmã, carrinhos e bolas para mim e meus irmãos ou alguma outra coisa que exercitasse nossa criatividade.



Naquele ano as coisas estavam mais difíceis que o normal. Meu pai estava licenciado do trabalho. Sua úlcera não o estava permitindo pegar no pesado. Apesar de sua teimosia não tinha forças para resistir à dor. Nossa mesa naquele ano não teria nem as poucas iguarias de todos os anos. À noite fomos dormir. Sabíamos que na manhã seguinte não encontraríamos presente algum aos pés de nossas camas. Mas criança tem sempre a esperança de que algo bom vai acontecer. Se não fosse assim não seria chamada de criança.


Acordamos na manhã seguinte e como já prevíamos nada de presentes. Fomos para o quintal, resignados, pois aprendemos muito cedo que devemos aguardar em Deus os acontecimentos. As outras crianças da rua brincavam felizes com seus presentes e nós observávamos tristes.


Sentei-me num dos degraus da varanda e olhei para o céu que naquele dia estava meio nublado com nuvens marrons correndo no céu, empurradas pelo vento. Aí eu vi. Eu juro que vi e trago comigo esta lembrança até hoje. Um gigante andando no céu. Suas botas pretas pareciam com as do papai Noel.


A boca da caça abalonada e enfiada nos tornozelos das botas. Ele andava rápido, junto com as nuvens, acho que era para não ser percebido. Sua roupa não era vermelha, era da cor da nuvem, daquela nuvem marrom. Não vi seu rosto nem seu corpo. Só os pés e as canelas. Fiquei parado e olhando até ele desaparecer em algum lugar do céu. Não falei nada para ninguém.



À tarde estávamos todos na sala vendo televisão, quando minha avó disse que ouviu um barulho num dos banheiros da casa que estava desativado. Corremos lá e tivemos a grande surpresa. Eu ganhara um caminhão de madeira tão grande que meu irmão podia sentar dentro. Meus outros dois irmãos também ganharam caminhões menores e minha irmã, uma linda boneca. Passei minha vida toda sem contar isso a ninguém.


Todos os natais eu fico olhando para o céu. Nunca mais vi o gigante. Acho que apesar de tentar ter o coração aberto como uma criança jamais voltarei a ser uma e ter aquela pureza. Meus natais hoje são muito legais, queria vê-lo para acenar e agradecer.


FELIZ NATAL!!!!!

Paulinho Freitas é sambista, compositor e escritor.