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Golpe de Mestre - por Paulinho Freitas

SÃO GONÇALO DE AFETOS


Foto: Pixabay
Foto: Pixabay

No bairro, os mais abastados eram Zenóbio Burra Cheia, um paraibano agiota que não dava mole pra ninguém. Devesse a alma ao “coisa ruim”, mas a Zenóbio, nunca. Ele mandava bater até tirar sangue, invadia a casa do devedor e levava até o ferro a carvão. Depois dele, Antônio Linguiça, açougueiro, português de Quintas D’Ouro, apaixonado por Zeneide, sua mulher, a mulher que povoava os sonhos de todos os homens do bairro, morava na imaginação dos adolescentes, no ódio ciumento e doentio das mulheres e nos planos ambiciosos de Chico Mão de Veludo, o maior trambiqueiro que já se teve notícias.


A mulata se casou com Antônio Linguiça por puro interesse, mas ele a tratava com tanto carinho, fazendo todas as vontades dela, que não demorou muito até que ela se afeiçoasse a ele também. Só que Chico Mão de Veludo vivia tentando desviar Zeneide, queria que ela cedesse às cantadas de Zenóbio Burra Cheia, era só passar umas horas com ele, dar uns “amassos” e quando ele dormisse, Chico Mão de Veludo entrava em ação. Roubava tudo o que tinha no cofre e os dois fugiriam para bem longe.


Tanto Chico Mão de Veludo insistiu que conseguiu. Zeneide cedeu às investidas de Zenóbio, foi para casa dele e mesmo não chegando aos finalmentes, por estar “naqueles dias”, deixou o homem tão cansado que ele adormeceu pesado, como um bebê no colo de sua mãe. Chico Mão de Veludo não perdeu tempo, entrou na casa, abriu o cofre sem dificuldades e fez a limpeza geral. Até o caderninho com o nome e os valores dos devedores ele carregou.



Na manhã seguinte, Antônio Linguiça e Zenóbio Burra Cheia estavam indignados, Antônio Linguiça passara todos os bens para o nome de Zeneide e ela já havia vendido tudo, só restou o açougue. Zenóbio Burra Cheia jurava vingança aos quatro cantos, riscava a peixeira no chão e jurava viajar o mundo inteiro se preciso fosse para achar os dois larápios. Dizia que não ia ser trouxa igual a Antônio Linguiça, eles pagariam por tudo.


Lá no litoral alagoano, Zeneide e Chico Mão de Veludo bebiam água de côco, descansando numa rede. Naquela noite beberam do vinho mais caro e comeram da melhor comida. Chico Mão de Veludo bebeu tanto que dormiu nu, no sofá da sala sem conseguir a noite de amor com Zuleide, que tanto programou. Pela manhã acordou com uma ressaca danada, dor de cabeça, enjoado, tonto ainda e, nú.


Para piorar estava sozinho e sem nada. A primeira coisa que fez foi procurar a mala de dinheiro, essa já não estava lá. Zeneide levou até as roupas dele para atrasá-lo. Chico Mão de Veludo conseguiu sair do hotel com uma roupa roubada no varal, andou algumas quadras, sentou-se no meio-fio e começou a chorar. Uma mulher se aproxima, tica sua cabeça e pergunta o que houve e quando ele levanta a cabeça vê uma mulher bem vestida e com pinta de ter grana, imediatamente inventa uma história mirabolante e antes do anoitecer já estava à beira de uma piscina bebendo um champagne e comendo camarões.


Zenóbio Burra Cheia amargou o prejuízo por um longo tempo, mas se recuperou. Tanto que recomeçou sua vida de açoites e covardia, além de continuar arrastando asas pra mulher do alheio.


O grande malandro da história foi Antônio Linguiça. Vendeu o açougue, voltou para Portugal sob a gargalhada dos vizinhos, achando que ele fora traído e roubado. Em sua Quinta D’Ouros, junto a sua Zeneide, isento de qualquer culpa, rico, com o dinheiro de Burra Cheia e todo seu patrimônio, dança um fado romântico com sua Zeneide.


Só nós dois é que sabemos o quanto nós queremos bem, só nós dois é que sabemos, só nós dois e mais ninguém...”


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Paulinho Freitas é sambista, compositor e escritor.





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