top of page

Jobedes - por Paulinho Freitas

SÃO GONÇALO DE AFETOS

Reprodução Internet
Reprodução Internet

Quando adolescente conheci Jobedes, o cara não era provido de grande beleza, mas tinha uma lábia de fazer inveja aos mais sensíveis poetas , aos melhores atores de novela das oito. Não importava a beleza da moça, a condição social ou financeira e o estado civil. Se Jobedes cismasse com ela, já era, ele investia pesado e não havia quem resistisse. Chegava sorrateiro feito cobra, elogiava, dava flores, mandava chocolates, ligava só pra saber como estava a pessoa e tantos mimos e cuidados dava que a mulher não resistia, caía nos braços do safado que tão logo conseguia seu intento a abandonava com o coração despedaçado, já com outra vítima na alça de mira.


Até o dia que conheceu Luiza, a mulher mais cobiçada da Cidade, misse no Clube, rainha das piscinas, estudante de direito e poetiza da melhor cepa, ela não tomava conhecimento de Jobedes na face da terra. Jobedes usou de todas as artimanhas conhecidas e supostamente eficazes para conquistar o coração de uma mulher, terra difícil de desbravar. Foram flores, perfumes, chocolates, poesias que ela por fim já nem lia e jogava no lixo. Jobedes teve o desplante de fazer greve de fome na frente da casa de Luiza e receber um sanduíche de pão com mortadela dado pela moça sem ao menos olhar em seus olhos e ver o falso sofrimento que aquela paixão impunha àquele pobre infeliz.



Já sem esperanças Jobedes jogou a toalha, viu que aquela fruta jamais seria para o aprecio de seu paladar e mudou a mira de seu canhão conquistador para outras paisagens.

Seguiu assim por longos vinte anos até que na inauguração de um supermercado na cidade, ao pegar um produto na prateleira, suas mãos pousaram sobre as mãos macias e lindas da linda Luiza, os olhos se fitaram e Jobedes sentiu o vigor da adolescência voltar ao corpo, todos os sonhos e encontros imaginados por ele a vinte anos atrás voltaram a sua mente em fração de segundos e a paixão adormecida explodiu impiedosa e faminta em seu coração. A convidou para um café e ela aceitou de pronto. Abriu seu coração para ela tentando abreviar naqueles minutos os vinte anos em que pensou nela.


Luiza contou sua vida nestes anos, casou-se, separou-se e agora ainda procurava se reerguer. Jurando cuidar da moça e fechar suas feridas Jobedes pediu-lhe uma chance. Marcaram um cinema no Shopping, depois jantariam e dali para frente o destino dos dois seria um.

Jobedes era um homem feliz e apaixonado, tinha encontrado sua alma gêmea e jurou que de agora em diante só teria olhos para Luiza, tomaria jeito e seria outro homem.


Saíram uma, duas, três, cinco vezes sem que ela desse a Jobedes mais que alguns beijinhos sem importância, ela queria ter certeza do amor que ele dizia sentir.


Jobedes estava cada vez mais apaixonado e até fazia planos de alugar um apartamento para morarem juntos, inclusive já tinha espalhado para a vizinhança que iria se casar com Luiza.

Enfim, tiveram a primeira noite de amor e pela manhã Jobedes a deixou na porta do prédio, de lá foi direto para casa arrumar as malas para morar definitivamente e para sempre com o amor de sua vida.


De volta ao prédio o porteiro lhe informou que Luiza nunca morou ali e que inclusive viu quando ele a deixou lá e que no mesmo instante ela pegou um táxi para outra direção.

Jobedes vive pela lembrança de Luiza e não entende por que foi tão covardemente abandonado.


Em NY York onde hoje mora, na frente de uma vitrine de loja Luiza ouve:


_I love you!


Virou-se e deu de cara com um belo homem, com um sorriso encantador, de joelhos e com uma rosa nas mãos. Segurou a rosa ruborizada e saiu andando feito uma tímida colegial. Enquanto o homem passava as mãos sobre os cabelos numa pose de Rodolfo Valentino, Luiza, no seu andar estonteante sorri diabolicamente e conversa com seus botões:


_ Mais um... Kkkkkkkkkk!


Pela primavera novaiorquina uma flor vai pelas ruas exalando envolvente perfume, enfeitiçando corações numa vingativa missão de fazê-los se apaixonar e abandoná-los à própria sorte.

 

Ajude a fortalecer nosso jornalismo independente contribuindo com a campanha 'Sou Daki e Apoio' de financiamento coletivo do Jornal Daki. Clique AQUI e contribua.

Paulinho Freitas é sambista, compositor e escritor.


POLÍTICA