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Julikim - por Paulinho Freitas

SÃO GONÇALO DE AFETOS

Crédito da imagem: http://jornalismocolaborativo.com/objeto-nao-identificado/soltando-pipa/
Crédito da imagem: http://jornalismocolaborativo.com/objeto-nao-identificado/soltando-pipa/

Somos vigiados dia e noite. Nem no banheiro, nos momentos mais íntimos temos sossego. Tem sempre alguém batendo na porta querendo entrar. Afora isso, em nosso cotidiano, é olho da vizinha, da sogra, da mulher, do marido, do filho, dos nossos amiguinhos de quatro patas que em busca de carinho estão sempre na espreita, vigiando nossos passos. Não se tem sossego nessa vida!


Escrevi o nome da rua em que resido no google e apareceu a foto da rua e bem no meio da foto o meu vizinho, que nem sabe que o mundo todo sabe que ele existe e que estava olhando a bunda da outra vizinha que passava lá na outra esquina sem nem imaginar que estava por ele sendo observada. Se a mulher dele sabe dessa foto vai dar a maior encrenca.


Dia desses, depois desses tempos mais reclusos por causa da pandemia, saí na intenção de ver a vida, respirar um pouco de rua, ouvir aquele “... ô filho da puta!” Para aquele motorista que passou direto no ponto de ônibus ou que tenha passado com as rodas do ônibus na poça de água molhando geral. Queria ver gente! A vida de nossa São Gonçalo pulsando novamente como há muito tempo não via...



Fui caminhando, passei pela farmácia do Osvaldo, pelo bar do Wilson, agora sob o comando de seu irmão Loloca e fui passando as mãos pelas ásperas paredes chapiscadas do Clube Tamoio, relembrando minha adolescência, tentando de todas as formas entrar para passar os finais de semana na piscina ou nos bailes ou na boite, mesmo com a mensalidade atrasada, só no papo ou no escalar do muro. Confesso que sempre vou às lágrimas com essas lembranças, minha vida sempre foi muito legal, graças a Deus.


Passei pelo estacionamento do clube, pela Tia do café no final do muro e entrei no primeiro bar gerenciado pelo meu xará Paulinho que junto ao Beck e ao nosso querido irmão Aluízio Mamãe ( Mamãe não!|) contavam um para o outro aquelas “histórias de bar”, (grifo meu) que em qualquer esquina se escuta. Assim, eu, sentindo o perfume da vida, a alma voltando para o corpo, tudo tentando ser normal de novo, pedi uma cerveja com a mente viajando, nem notando que um guri, um moleque de seus dez anos de idade, não mais que isso, estava segurando meu braço como se estivesse me acompanhando. Olhei pra ele com espanto e perguntei:


_ Tu saiu de onde moleque? Tá amarrado!


O menino começou a correr pelo bar, rindo e gritando:


_ Me dá aquela pipa que está no seu carro! Eu quero aquela pipa! Eu perguntei: _ Que pipa moleque? Que carro? Eu estou a pé! Você está me confundindo com alguém.


Ele sem parar de correr, gritava:


_Ziu! Ziu! Ziu! O carro tá lá na sua casa e a pipa está dentro dele, a minha pipa, eu quero ela!


Como é seu nome? Você mora onde? Perguntei. Ele me responde:


_ Sou Julikim, morava lá no Morro dos Marítimos, agora vivo por aí.


Eu adoro pipas, desde criança, não posso vê-las que fico embevecido olhando o seu bailar ao sabor do vento. Quando tem várias no céu em combate então eu me perco, volto no tempo e viro uma criança de novo.



Esses dias, vindo do trabalho pela manhã, vi uma pipa no chão, era colorida de amarelo, azul, branco e roxo e ainda tinha uma rabiola preta. Eu parei o carro e a peguei. Realmente ainda estava lá, no porta-malas. Como ele sabia disso? O meleque era realmente uma figura, fui lá em casa rapidinho e peguei a pipa. Quando cheguei perto dele perguntei:


_ Eu vou te dar a pipa e você vai me dar o quê?


Ele com os olhinhos brilhando, pulando de felicidade como uma criança de dez anos, hoje é difícil ver uma criança-criança né não? respondeu:


_ Vou te dar nada! A pipa é minha. Se você andar direito eu cuido para que seu caminho seja cheinho de pipas, de linha, de vento... Agora, se andar torto é com o tio mesmo. Bença tio!


E saiu como uma flecha porta a fora, nem vi pra onde foi. Meus amigos riam de mim sem parar, eu ri também, o guri foi muito inteligente e ardiloso, me envolvendo em sua conversa para levar a pipa. Mas como ele sabia que eu tinha uma pipa no carro? Bebi a cerveja apressado, nem conversei.



Quando me despedi, o Aloízio mamãe, (Mamãe não!) me pergunta:


_ Paulinho, tu é maluco ou corre atrás de avião? A pandemia te deixou meio doido, tá falando sozinho!


Todos no bar caíram na gargalhada. Fiquei meio aborrecido saí do bar de volta para casa. Na primeira esquina, quando olhei lá pros lados da Rua Bahia vi a pipa, a minha pipa no alto, ela estava paradinha no ar, só que na ponta da linha que estava no chão não tinha ninguém. O calor estava demais e não corria nem um vento. Como a pipa estava no ar sem vento?


Salva as crianças! Onipé Ibéji!

Paulinho Freitas é sambista, compositor e escritor.