O super-herói, os cupins e a prateleira do supermercado
- Jornal Daki

- há 13 minutos
- 3 min de leitura
Por Mira Pimentel

Confesso: estou diante de uma grande surpresa.
Há momentos em que a política nos obriga a olhar novamente para aquilo que julgávamos conhecer e admitir que, talvez, ainda existam perguntas sem respostas.
Existe um antigo ensinamento bíblico que atravessa os séculos: quando os justos governam, o povo se alegra; quando os maus dominam, o povo geme.
Eu acrescentaria, por conta própria: quando um sábio governa, a máquina pública pode respirar; quando um néscio governa, quem sofre é justamente aquele que não tem nenhuma máquina para protegê-lo.
E talvez seja exatamente por isso que eu esteja olhando para o cenário do Rio de Janeiro com uma pergunta incômoda:
por que o sistema parece ter tanta dificuldade com uma máquina que pretende funcionar?
Talvez porque máquina funcionando dê trabalho.
Máquina funcionando exige transparência.
Exige fiscalização.
Exige prestação de contas.
Exige dinheiro público chegando onde deveria chegar.
Exige criança na escola.
Exige adolescente tendo oportunidade.
Exige saúde funcionando.
Exige obra entregue.
Exige, principalmente, que o cidadão deixe de ser apenas aquele que paga a conta.
Porque, enquanto os grandes personagens da política ocupam manchetes, o povo continua visitando as prateleiras do supermercado.
E descobre que o arroz mudou de preço.
O feijão mudou.
O café mudou.
O leite mudou.
Tudo muda.
Menos o boleto.
E é curioso observar como, de tempos em tempos, quando alguém resolve mexer em estruturas antigas, investigar, denunciar ou questionar aqueles que se acostumaram ao conforto do poder, surge uma reação quase automática.
O sistema se defende.
Às vezes com argumentos.
Às vezes com ataques.
Às vezes tentando transformar quem incomoda em problema.
Talvez porque sistemas acostumados a funcionar para poucos desenvolvam uma espécie de fobia de máquinas que realmente funcionem para muitos.
E aí entram os cupins.
Não aqueles pequenos insetos que conhecemos, mas os metafóricos: os que trabalham silenciosamente dentro da madeira pública, corroendo recursos, estruturas e esperanças.
Enquanto isso, o cidadão continua trabalhando.
Paga impostos.
Paga contas.
Paga juros.
Paga supermercado.
Paga boletos.
E ainda precisa ouvir que não há dinheiro.
Que ironia.
O dinheiro público parece desaparecer com uma eficiência que muitos serviços públicos jamais conseguiram alcançar.
Mas alguma coisa mudou.
A geração que está chegando já não aceita tão facilmente o papel de plateia.
Ela pesquisa.
Compara.
Questiona.
Desconfia.
Procura outras versões da mesma história.
Também cai em fake news, é verdade.
Mas agora a mentira precisa disputar espaço com a informação.
Existe um debate silencioso acontecendo.
Nas escolas.
Nas universidades.
Nas redes.
Nas conversas de família.
Na cabeça de uma juventude que começa a compreender que política não é herança de sobrenome, nem propriedade particular de grupos que se alternam no poder.
Talvez estejamos diante de uma mudança silenciosa.
Não necessariamente porque a velha política esteja desaparecendo.
Mas porque o eleitor começa a perceber que pode abrir a própria lupa.
Pesquisar.
Comparar.
Questionar.
E decidir.
No fim, talvez o verdadeiro super-herói dessa história não esteja em nenhum palanque.
Talvez esteja justamente naquele cidadão que cansou de assistir à casa pública ser comida por cupins e resolveu, finalmente, perguntar:
quem está cuidando da casa que também é minha?
E essa pergunta pode ser o começo de uma nova história.
Uma história em que a esperança não venha de um salvador, mas da consciência de quem aprendeu que votar também é uma forma de fiscalizar.
Porque talvez ainda exista uma coisa capaz de vencer os cupins: um povo que aprendeu a pensar.
E quando um povo pensa, pesquisa e escolhe com consciência, até a velha máquina do poder precisa aprender a funcionar de outra maneira.
Talvez seja aí que comece o nosso sorriso de esperança.
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Mira Pimentel é cronista.








































































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