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MULHER - por Paulinho Freitas

SÃO GONÇALO DE AFETOS


Foto: GettyImages
Foto: GettyImages

Quando eu era pequeno ficava olhando o tratamento que meu pai e os vizinhos

dispensavam a suas esposas. Meu pai trabalhava todos os dias, inclusive aos sábados,

quando chegava em casa à noite ninguém podia fazer barulho, era hora de ver o tele-

jornal, após este horário ele ia tomar banho e quando saía do banheiro sua mesa estava

posta; jantava, se deitava no sofá e cochilava enquanto mamãe assistia novela com o

volume da TV bem baixinho para não atrapalhar o descanso do guerreiro.


As crianças não brincavam mais e não falavam mais, era hora de procurar cama e ficar quieto. Isso sempre me fez muito mal. Quando o domingo chegava os homens se reuniam em

divertidas rodas de bate-papo pela manhã fazendo a leitura dos jornais, depois desciam a

rua até a padaria onde bebiam cerveja até a hora do almoço.


As mulheres ficavam em casa cuidando de suas crias, lavando, passando, cozinhando e aguardando a hora do homem chegar para por a mesa. Todos almoçavam, mamãe ia lavar a louça e arrumar a cozinha. Nós íamos para o quintal brincar, papai monopolizava a televisão, apesar de dormir a tarde toda não se podia mudar o canal da tv.


Neste período de início de tarde as vizinhas ficavam reunidas conversando, os assuntos sempre eram sobre problemas domésticos e relacionamentos conjugais. Todas, sem exceção reclamavam muito dos maridos, uns não davam a mínima atenção, nem reparavam num corte de cabelo ou uma camisola mais sensual.


Outros quando deitavam ao lado da mulher e a abraçavam era somente para satisfazer seus instintos, depois viravam para o lado e dormiam deixando-as olhando para o teto e com lágrimas nos olhos.


Fui crescendo e percebendo o quão ruim era viver numa sociedade assim, dei sorte porque mesmo vivendo numa sociedade tão machista minha mãe e minha avó nos ensinaram de um tudo, minha irmã sempre leu muito e quanto mais livros tinha, mais minha avó comprava, eu sempre fui preguiçoso para a leitura, mas elas, na sabedoria que só mulher tem contavam histórias pra gente, sempre com grandes homens protagonizando, mas homens respeitosos, educados e elegantes; personagens tão fascinantes que a gente sonhava um dia ser como eles.



O tempo foi passando e a mulher saiu do tanque para a caixa do supermercado, para os

caixas de banco, para as mesas de secretárias, sempre sérias competentes e vorazes por

melhores posições sociais, hoje estão em todos os lugares.


Hoje vejo que aquelas figuras que povoaram minha infância ainda existem, porém em um número insignificante. Vejo minha mulher tomar conta de nossa família com extremo zelo, competência, amor, pulso firme, uma parceira e tanto.


Penso nos tempos idos, penso em algumas mulheres que ainda não acordaram para os novos tempos, penso principalmente em todo sofrimento e esforço que a mulher fez para chegar até aqui, penso também que há tanto ainda para ser conquistado por elas...


Não dá pra se ter ainda um dia internacional da mulher, infelizmente não dá. Enquanto a

raça humana permitir a prostituição infantil que se prolifera até onde deveria ser

combatida, enquanto a violência contra a mulher for tratada da forma branda como

ainda é, enquanto algumas mulheres não se derem ao respeito e forem até as últimas

consequências, as últimas instâncias judiciais para que seus agressores paguem por

molestá-las, enquanto estes monstros pedófilos não tiverem sua prisão perpétua

decretada, todos os dias terão que ser o dia internacional da mulher.


Orando, trabalhando, vigiando, cobrando seus direitos e exigindo, sim, exigindo estar no mesmo patamar político e profissional do semelhante do sexo oposto. Quando chegarmos a esse dia poderemos pensar num passo mais largo, o da comemoração do dia internacional do

ser humano.


Agradeço a Deus pelas mulheres da minha vida, meu caminho até aqui foi difícil, muito

difícil, se não fosse com a ajuda delas acho que já teria desistido. É legal ser homem e

ver a mulher de fora para dentro, é complicado entendê-las, mas o gostoso é viver

tentando.

 

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Paulinho Freitas é sambista, compositor e escritor.