top of page

O dedo-duro - por Paulinho Freitas

SÃO GONÇALO DE AFETOS

Foto: Thinkstock/hjalmeida
Foto: Thinkstock/hjalmeida

Na comunidade as crianças são acostumadas a nunca denunciarem a travessura feita por outra criança e às vezes todas são castigadas pelo erro de uma.


Quando Ceará chegou na comunidade as coisas começaram a mudar. Tudo o que acontecia fosse na rua ou na sala de aula ele não titubeava em apontar o culpado.


Quando as crianças o cobravam a falta de companheirismo ele falava: _ Pra chorar Mainha, chora a tua mãe que tá mais velha, não vou pagar castigo por ninguém, quem fez que se lasque. Se quiser não ser castigado, não faça na minha frente.


E assim foram as crianças crescendo excluindo Ceará das brincadeiras e assuntos confidenciais.




Quando adolescentes começaram a desaparecer objetos das casas dos moradores. Da casa de dona Helena sumiram, numa noite, três lâmpadas daquelas que custam caro. Na casa de Jacy, o botijão de gás que ficava na porta da cozinha também desapareceu. Coisas pequenas, até sem valor comercial foram sumindo.


A culpa recaiu sobre Jorge Caniço, catador de material reciclável que passava as madrugadas revirando latas de lixo. Apesar de negar de pés juntos que jamais tocara em nada do alheio, foi cercado pela vizinhança e só não levou um couro firme porque Ceará interveio e apontou Jorge Luiz, de família respeitada, com uma condição financeira controlada e sem a necessidade do feito, o fazia pelo prazer de fazer e escondia o produto de seus roubos num matagal atrás de sua casa, jogando por cima do muro.


Depois de muitas negativas, mas sem ter como negar, pois Ceará apontou onde ele escondia as peças roubadas, teve que confessar. A família passou pelo constrangimento de ter um membro seu apontado na rua e não aguentando a humilhação mudou-se.


Jorge Caniço, graças a Ceará, não foi linchado pelos vizinhos em fúria, que não deram o mesmo tratamento ao verdadeiro culpado, continua levando sua vida catando recicláveis pela vizinhança, nada mais sumiu e a vida voltou ao normal.


Se não fosse o “dedo duro” a máxima bíblica “o inocente paga pelo pecador” seria cumprida e o desfecho desta história teria sido muito diferente.


A honestidade venceu uma. Até que enfim!

 

Ajude a fortalecer nosso jornalismo independente contribuindo com a campanha 'Sou Daki e Apoio' de financiamento coletivo do Jornal Daki. Clique AQUI e contribua.


Paulinho Freitas é sambista, compositor e escritor.




POLÍTICA