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Personagens: Serginho

Por Paulinho Freitas


SÃO GONÇALO DE AFETOS


Foto: Arquivo/Lucas Alvarenga/Divulgação
Foto: Arquivo/Lucas Alvarenga/Divulgação



Na minha adolescência frequentava o Grupo Jovem do Gradim, na Igreja de São José Operário e Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. Após as missas de sábado tínhamos sempre uma festa para irmos e se não tivesse, nos reunimos na casa de alguém para uma violada ou então ouvir uns discos e dançar coladinho. Tempos dos melhores de minha vida. 


Certo sábado saímos de uma dessas festas e viemos caminhando pela rua, cantando e gargalhando, coisa própria da adolescência. Em dado momento surge um monte de rapazes a nossa frente ávidos por uma confusão. Foi um corre-corre danado e quando eu vi estava cercado e sozinho. Serginho, um cidadão de mais ou menos 1,90m de altura e o coração que era só perversidade, tinha se engalfinhado com um de nossos colegas e escorregou, caindo numa vala fétida. Saiu de lá todo enlameado e cheio de ódio. Os olhos dele pareciam duas bolas de fogo. Eu de roupa nova e todo cheiroso queria correr, mas as pernas não obedeciam.


O gigante avançou, não sei de onde tirei forças, dei um drible de corpo nele, empurrei o mais fraco da roda e consegui correr. Meu irmão, com 1,60m que de longe me viu cercado, voltou para me socorrer, passei avisando que eu estava bem e que era pra gente correr. Ele estava determinado e foi lá encarar a fera. O cara nem tomou conhecimento dele, deu-lhe um tapa de mão aberta que ele chegou a sair do chão e já caiu correndo. Ao conseguirmos chegar a um lugar seguro caçoávamos uns dos outros e gargalhávamos muito. 


No dia seguinte soube que ele morava na mesma rua em que minha namorada morava. Meu Deus! O que fazer? 



Serginho era um cara de poucas palavras e muita ação. Não levava desaforo para casa, adorava uma confusão. Certa vez, bebia ele no Bar do Horácio, um dia mais famosos por sua farta vitrine de tira gosto e a cerveja mais gelada do bairro, além de ser um dos poucos a passar a madrugada aberto. Só outro lado da rua dois homens batiam num, numa grande covardia. Serginho observava e ria. Depois de alguns minutos cobriu o copo com um guardanapo para não cair poeira, levantou, atravessou a rua e pegou os dois de pancada, bateu até os caras correrem sem conseguirem dar uma tapa sequer nele.


Quando o que estava sendo espancado veio agradecer o livramento, ao invés de consolo, apanhou também pra deixar de ser otário. Serginho e sua turma metiam medo em qualquer um. 


Não sei como foi, só sei que casei e fui morar na rua dele sem nunca mais o ver. Até que um dia ele apareceu na esquina onde eu bebia numa roda de amigos, só escutei a voz dele e quase molhei as calças. Ele não era pessoa de pedir, se ele quisesse uma coisa, metia a mão e pegava. Naquele dia não, pediu uma dose educadamente e quando foi servido pediu para que esperássemos, foi ao comércio local e voltou com um refrigerante, que misturou na bebida e sorveu de um só gole. Depois me estendeu a mão e disse que me admirava muito por ele ter caído e eu não o tê-lo chutado. Disse que o que passou, passou e que o que eu precisasse era só falar com ele. Mal sabia ele que eu nem o tinha visto cair.  


Serginho era pescador e num noite de pescaria teve um ataque epilético e caiu dentro da rede não conseguindo se livrar. Os companheiros tentaram, mas não o conseguiram salvar. 


Muitos desafetos foram ao enterro para certificarem se realmente era ele o defunto. Ele se foi, mas deixou muitas histórias como esta e muita gente, até hoje tendo pesadelos com ele. 


São Gonçalo é como nossas vidas, cheio de histórias e personagens inesquecíveis. 


Salve São Gonçalo do Amarantes! 


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Paulinho Freitas é sambista, compositor e escritor.