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"Para mudar, gonçalense tem que amar a cidade"



É fato que alguma coisa nova vem acontecendo no Brasil nos últimos anos. Mas somente em 2013 com as grandes manifestações nos demos conta disso, embora não saibamos ainda entender e muito menos explicar com exatidão. O que eram suspiros ou gritos por cidadania e por direitos civis isolados, agora é um ruído permanente que se ouve em todos os cantos do Brasil. As melhorias pontuais nas vidas das pessoas nos últimos anos não foram acompanhadas pelos serviços públicos oferecidos nos grandes centros urbanos. O poder público continua inerte frente a essa urgência cidadã por qualidade de vida. Como mudar isso? Aqui em São Gonçalo o Fabiano Barreto chamou atenção para o seu ato na Praça dos Ex-Combatentes, mas a coisa vai muito além do tanque rosa, como poderemos ver abaixo. E, segundo ele, só tá começando. O caso do tanque rosa, na verdade, nos revelou um novo intelectual-ativista de peso na cidade, e tornou-se uma referência instantânea para muita gente. Jornal Daki Muita coisa já foi dita sobre a sua intervenção na praça dos ex-combatentes. Você mesmo escreveu sobre as suas razões para o que fez. No entanto, acreditamos que esse assunto não se esgotou, pelo contrário. Ele só começa, a partir do momento que o indivíduo interfere de modo consciente na paisagem urbana reclamando o protagonismo da sociedade das decisões do dia a dia da cidade, nem que seja pela via transgressora. Você esperava essa repercussão toda e como passou a ser a sua vida depois do dia primeiro?

Fabiano Barreto

Eu tinha a intenção colocar em evidência essa causa, esse debate sobre identidade territorial na cidade de São Gonçalo. Por isso cheguei à conclusão de usar a cor que usei (o rosa) sobre o objeto escolhido (o tanque de guerra). Entendi que dessa forma poderia ativar um arco relativamente amplo de representações simbólicas, junto à população. Mas imaginava que o espectro do feito seria reduzido, talvez recluso ao próprio bairro e imediações. Tamanha repercussão foi uma grata surpresa, sem dúvida alguma. Quanto ao meu dia a dia, pouca coisa mudou. Houve aquela abordagem efêmera de alguns jornais e redes de TV, mas já passou. Embora tenha realizado algo inusitado, sou um cara discreto. A intenção não foi chamar atenção pra mim, mas para a causa. E o desafio, agora, é sustentar esse debate.

Você fez questão de exaltar o modo de abordagem das forças policiais após a detenção. O tratamento policial dado a você destoa de muitas das afirmações contrárias ao seu ato, que apelam invariavelmente para a força bruta e a repressão. O abismo ao qual se refere é tão profundo assim?

Na verdade, o abismo ao qual me refiro consiste no fato de que, no Brasil, o poder público em geral, mesmo após o fim da ditadura, insiste em usar a polícia como agente de serviço social e nós sabemos que esta não é uma atribuição dos policiais. Eu poderia usar minhas próprias palavras pra esclarecer isso, mas prefiro citar uma entrevista que o delegado Orlando Zaccone concedeu recentemente ao Le Monde Diplomatique Brasil, onde diz: “ É um fenômemo mundial, cada vez mais a política gira em torno da gestão. Recentemente o Agamben escreveu um artigo que saiu no Le Monde Diplomatique em que ele aponta justamente isso, sobre como o dispositivo da segurança é, na verdade, um dispositivo regulador da economia. A idéia é um pouco essa: ao invés de atacar os problemas, nós vamos gerir os problemas. Todo o debate político está voltado para isso, e para a construção de inimigos. Por exemplo, o que fazer com a população de rua? A gente transforma a questão da população de rua e de moradia em uma questão de segurança. A gente joga tudo para a segurança. A questão do menor, da maioridade penal, também virou uma questão de segurança.”


Agora, note que o acordo entre instituições e grande mídia é tão sedimentado que tudo em torno da intervenção de pintura do tanque envolve controle e disciplinamento: Via de regra, o caso foi registrado em cadernos policias ou programas policialescos de TV e não como pauta de cadernos de comportamento e sociedade; além disso, no caso do papel da prefeitura de São Gonçalo, em vez de buscar estabelecer um diálogo com a comunidade e identificar demandas de lazer - sobretudo entre a juventude local - as atitudes tomadas foram no sentido de mobilização da polícia militar e da guarda municipal, sob a justificativa de coibir eventuais pichadores. Ou seja, combate-se o diabo da delinquencia com o capeta da coerção. Diálogo com a população? Mas nem sob tortura!

Pra concluir, fiz questão de sublinhar a forma como fui tratado pelos agentes policiais na ocasião, não no sentido de exaltá-los e sim porque entendo que esse deveria ser o padrão de atendimento. Não importa se quem é detido cometeu um crime hediondo. Esse indivíduo deve ter assegurado o direito de ampla defesa. Sempre que oferece anuência a desvios por parte das tropas policiais, isso se converte em queda qualitativa de direitos e cidadania contra a própria sociedade. Quanto mais clama por execuções sumárias, a sociedade faz com que as armas do Estado apontem para a própria face. Foi em face disso que me preocupei em relatar essa parte da ocorrência.

O historiador e antropólogo gonçalense Marcelo Araújo foi o primeiro a abordar o fenômeno das intervenções urbanas através do graffiti em São Gonçalo, que tem uma cena muito forte, e que foi terrivelmente reprimido no início. Segundo ele, “a partir destas produções imagéticas, estes atores urbanos discursam sobre a sociedade que os envolve, posicionando-se criticamente e afirmando a sua existência naquele cenário”. É isso que você busca a partir do momento que diz que não vai parar, que a praça foi só o começo?

Na verdade, é algo que vai além. Penso que lancei uma semente em solo fértil. Basta checar nas redes sociais a profusão de ideias que foram surgindo, a partir do que fiz: Pinte-se isso, pinte-se aquilo. Entendo essa intervenção artística como o possível disparo de um processo. Estou apostando no efeito multiplicador dessa iniciativa. A intenção é fazer com que os cidadãos locais percebam e abracem a causa como uma grande potência coletiva e, o melhor, sem que seja algo enfadonho ou burocrático. Muito pelo contrário, há de se ver que é possível agir politicamente com alegria e boa dose de espontaneidade; basta que haja estranhamento. E entendo o estranhamento como uma medida humana, é quando olhamos para algo e não enxergamos a sua rotina, mas os escaninhos de suas potencialidades. Não precisa ser especialista pra estranhar a realidade, precisamos é desenvolver o desejo de encontrar algo especial. Acho que é aquela ideia da flor que nasce na pedra... Talvez a diferença seja que em São Gonçalo temos a pedra, basta o ímpeto de trazer e acomodar a flor.


Há uma inquietação sua sobre o binômio identidade/território em São Gonçalo, por quê?

Mais do que me posicionar como um indivíduo, tentei usar a pintura do tanque como um chamamento para que a sociedade gonçalense reconheça o território São Gonçalo como seu, não num sentido patrimonialista, mas como algo público, como bem comum. Há pessoas que se envergonham de morar na cidade, por causa de preconceitos que recaem sobre ela (má urbanização, etc.), adotam a representação de um território subalterno. Esses indivíduos não se dão conta de como isso é politicamente desastroso, pois, de alguma forma, sinaliza para a administração municipal que pouco importa que rumo será dado à gestão local. Pra dizer o mínimo, isso contribui pra que as finanças do município sejam uma verdadeira ‘caixa preta’. A quem isso pode interessar? Certamente, não à sociedade. Então, a questão é a seguinte: se você não se identifica com o território, por que ele será melhorado? Você não exige nada, simplesmente sobrevive a ele.

Muita gente que mora aqui projeta o futuro pra viver em Niterói ou na capital, mas acaba passando a vida inteira em São Gonçalo. Não tenho nada contra quem planeja a vida dessa forma, mas penso que, se criamos nossos filhos aqui e hoje, parafraseando o Gil, “o melhor lugar do mundo [tem de ser] aqui e agora”. Devemos ter qualidade de vida nessa cidade, hoje. Hospitais, escolas, praças, teatros, transporte, tudo de melhor, hoje. E esse planejamento não está na mesa da administração local. Desde muitos mandatos atrás, a política formal praticada em São Gonçalo é impermeável a demandas genuinamente populares. Bem, se as aves de rapina assentadas nos gabinetes da prefeitura nada fazem, vejo que não nos resta outra saída senão a disputa, o empoderamento popular no e pelo território. Mas para isso precisamos fundamentalmente reconhecê-lo como nosso. Com toda repercussão do tanque pintado de rosa, acabei descobrindo que, para o nosso fascínio, muito mais gente na cidade pensa como eu. Estamos no caminho...


A sociedade organizada na cidade é muito incipiente ou cooptada pelo poder público. como mudar esta realidade no sentido de se tornar uma potência política e participativa?

Política é a disputa por recursos escassos, num dado contexto; no nosso caso, tudo passa pela disputa do território, pelo rompimento com o patrimonialismo dos grupos à frente da prefeitura - essa cidade não é deles, é nossa. Apenas faço questão de considerar que isto que venho tratando como um único território não me parece ser um todo homogêneo... Existem as especificidades e demandas de cada bairro, temos também favelas. Logo, não há uma receita de bolo. Sendo mais objetivo, eventualmente podem ocorrer alterações metodológicas, mas o objetivo há de permanecer o mesmo. Eu me vali da desobediência civil. Talvez, outras pessoas ou coletivos desenvolvam outras formas de atuação, menos ou mais radicais, mas tão eficientes quanto. O que importa, antes de qualquer coisa, é o estranhamento.


Por que usar a rede social Diaspora* em vez do Facebook e o Openbox em vez das contas de email como Gmail, Yahoo, etc..?

Não me agrada o aspecto corporativo desses grandes operadores virtuais, tampouco a forma grosseira como providenciam a demolição de nossa privacidade. Se me empenho para transformar a realidade, nada mais coerente que frequentar uma rede descentralizada como a Diaspora e utilizar serviços encriptados e financiados coletivamente, tal qual o Openmailbox. Tanto quanto a territorialidade, a privacidade se converteu historicamente num bem humano e um regulador político. Com nossas vidas devassadas até os fios de cabelo, como poderemos nos defender, caso partidos políticos se interessem em comprar nossos dados de redes corporativas? Que chance teremos diante de candidatos que eventualmente saibam mais sobre nós do que nós mesmos. Tenho contas no Facebook, Whatsapp, etc. e pretendo cancelá-las em breve. A privacidade é uma prerrogativa inegociável para que vivamos num mundo onde ainda se considere a liberdade algo de valor.



Fabiano Barreto é sociólogo e colunista do Jornal Daki.

#CIDADE #FABIANOBARRETO #HELCIOALBANO

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