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Porto da Madama e a relíquia maltratada, por Erick Bernardes


Parecia propaganda de cartão de crédito transmitido no intervalo de programa de televisão. Acordar cedo com o dia ensolarado, comer um pão quentinho com manteiga de verdade, beijar os filhos, que ainda nem bem acordavam, e sair sem aquela culpa dos excessos de lasanha da noite anterior. Isso não tem preço! De fato, dinheiro algum cobre um sábado começado com disposição de ver algumas calorias jogadas fora.

Bem, reconheço que uma corrida matutina na famosa pista da caminhada nunca foi um sofrimento pra mim. Gente alegre em marcha saudável existe aos montes por lá. Energia muito boa e animada pela manhã. Começando no bairro Camarão e seguindo até próximo ao Porto da Madama, sempre vale a pena. Ao alongar brevemente as coxas e panturrilhas, pensei em seguir o percurso à direita como sempre. Mas não, não seria dessa vez assim. Dobrar à esquerda me permitiria chegar fácil à antiga Estação de Trem Porto da Madama. A esquerda sempre me traz coisas boas. Isso mesmo, bem pensado. Quem sabe a falta de assunto acabava ali e uma excelente crônica me daria o ar da graça! Seguir à esquerda, isso sim.

Fim de raciocínio chato, reforço no amarrar dos cadarços, marcação no relógio do celular, e vinte e oito minutos decorreram até eu chegar afoito ao Porto da Madama.

—Pronto, aqui.


Nota do editor: Antiga estação ferroviária Porto da Madama. Em 2012 a prefeita Aparecida Panisset sancionou lei de autoria do vereador Marlos Costa que tombou esta e outras estações na cidade, mais precisamente as estações do Tamoio e de Alcântara, que ainda estão de pé.O projeto original de tombamento prevê a restauração do espaço físico e posterior transformação desse espaço em centro de cultura e de memória. Foto: Erick Bernardes.

Cheguei já perguntando à ciclista sonolenta, cujos pneus amassados denunciavam excessiva pressão de sobrepeso na bicicleta (amassados eram pneus da bicicleta, obviamente).

—Senhora, por favor, aqui começa o Porto da Madama?

Sabe leitor, às vezes a obviedade da pergunta, pra não dizer impertinência, serve de instrumento ao bom bate-papo, pois permite que um antigo morador ou fofoqueiro de esquina se sinta importante ao dar informações sobre o lugar onde nasceu. Isso mesmo, porque, diante das letras garrafais da placa, ESTAÇÃO PORTO DA MADAMA, estava muitíssimo evidente: ou eu era um imbecil perturbando o juízo alheio ou buscava conversa à toa só pra conhecer pessoas.

E foi quando o sorriso da ciclista viabilizou novas explicações — e ela ministrou com gosto uma quase palestra de geografia sobre o antigo Porto da Madama. Até relembrou uma velha peça do teatrinho que fazia para as crianças no Escola Estadual Macedo Soares que ainda existe ali próximo.

—Olha moço, eu dei aula numa escola aqui perto. Hoje estou longe do magistério, mas recordo bem sobre a vida da Madame, e não Madama, conforme tá escrito ali óh! Estudei isso e ensinei para as crianças. Vou lhe explicar. Contam os livros que havia uma estação de trem responsável por transportar madeira e carvão de Cachoeira de Macacu pertencente ao empresário Paulo Leroux, cuja importância na região foi tamanha que seu nome batizou até nome de rua. Sua mais fiel parceira de trabalho chamava-se Maria Bazim Desmarest, uma das parentes dele, e exigia esforço no falar do nome. Por isso, referiam à Senhora Desmarest, com a forma abrasileirada da pronúncia madama, em vez de madame em português correto.

E assim a explicação da ciclista amadora desceu fácil como água em riacho. Que memória hein! E ela iria declamar chorosa a fala da peça que jamais esqueceu, caso eu não me despedisse logo. Dei tchau à ex-professora sabida e voltei correndo pra casa, fugi, sem antes tirar uma boa foto da antiga estação Porto da Madama, toda pichada e depredada. Coitada, uma pena!


Erick Bernardes é escritor e mestre em Estudos Literários.

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